sábado, 14 de maio de 2011

Entre os 20 e os 70 uma coisa em comum: rock´n´roll

Dia 13 completei 37 anos. Desde os 13 anos eu ouço rock, basicamente. Na noite do dia 12, para comemorar, fui com meu amor assistir o segundo show em menos de dois meses de uma das maiores lendas do gênero no Brasil: “o meu amigo Erasmo Carlos”. E o show dele não pode ser descrito como menos que sensacional.

Ontem, fui dar uma volta pelo bairro e passei por um barzinho rock´n´roll ao lado de casa. Três meninas (guitarra, baixo e bateria) tocavam “Act Naturally”, um número de country-western que foi gravado pelos Beatles em “Help!” e que fazia parte do repertório dos rapazes de Liverpool desde a época dos shows em Hamburgo.

Na volta desse rolê não resisti e parei pela primeira vez no “The Red One”, o tal boteco rock´n´roll, ao lado de casa, na rua Machado de Assis. Tinha que atender o chamado.

Dos 16 aos 22 toquei rock´n´roll em duas bandas diferentes e uma coisa que sempre esteve no repertório era rockabilly e rock, covers de Beatles, Ramones, enfim, rock hormonal puro. É um tipo de som que sempre me agradou.

Tomei uma cervejinha e iniciei meu testemunho. As meninas pegaram suas guitarra, baixo e bateria e começaram a tocar músicas dos anos 50 e 60, rockabillies de Eddie Cochran, Chuck Berry, Little Richard, Carl Perkins. O mais interessante é que os arranjos se calcam nas versões que os Beatles e outros grupos de Mersey Beat deram a estes sons, semelhantes a forma como os Beatles tocavam no Cavern Club e em Hamburgo, conforme gravações presentes no Live at BBC e no primeiro volume do Anthology. O resultado é sensacional.



Pedi e fui atendido: ao final, elas tocaram “Sweet Little Sixteen”, do Chuck Berry, que eu toquei muito com o amigo Tide, com direito a “duck walk” da Marina, vocalista e guitarrista da banda cujo nome eu finalmente descobri: The Mersey Beggars ( www.myspace.com/themerseybeggars ). No próximo dia 27 de maio, sexta-feira, elas tocarão no The Red One novamente. Estarei lá. É imperdível.

E o que isso tem a ver com Erasmo? Há 50 anos atrás um galalau da Tijuca conheceu um garoto do Espírito Santo que se chamava Roberto, que tocava com um gordinho chamado Sebastião. Todos conheciam também o Jorge, que tinha uma batida diferente. E eles mudaram a música brasileira.



Na noite anterior, como dizia, Erasmo, quase 70 anos, estava cercado de três garotos também: o baixista, um dos guitarristas e o baterista de sua banda, são garotos que recém atingiram a maioridade, como as The Mersey Beggars, mas com instrumentos, amplis e roupas vintage, um deles inclusive tem uma Gianinni dos anos 60/70, imitando uma Rickenbaker.

Os meninos se chamam os Filhos da Judith ( http://www.myspace.com/filhosdajudith ) e são demais também e contribuem para o Erasmo manter a chama do rock´n´roll acesa. Como um garoto de vinte e poucos, ele leva a plateia de coroas e jovens ao delírio. O ponto de contato entre todos eles é único: o rock´n´roll. E, ao que parece, ao contrário de todos os prognósticos, nunca pode morrer, como canta Neil Young.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

É hora de quê no mundo? É hora do show!

Durante todo o show da turnê 360º, pipocaram mensagens no telão de alta definição e o Bono perguntava: “É hora de quê no mundo?”. A pergunta fica latejando durante todo o espetáculo, relógios aparecem no telão multimídia, até que perto do fim do show, antes do êxtase de “With Or Without You”, o cantor do U2 responde: “É hora do show!”.

Nenhuma outra banda no mundo sabe mais que o U2 o momento que os habitantes deste planeta vivem atualmente. Na era da mídia, em que cada um pode, do seu celular, decidir sua vida, namorar, publicar notícias, denunciar atrocidades, se agrupar em torno de uma causa, enfim, protagonizar, decidir, mandar. É hora de aparecer, é hora do show. E, num show do U2, todos fazemos parte, todos pertencemos, somos partes integrantes do espetáculo.

Nada mais apropriado então do que homenagear David Bowie e sua “Space Oddity”_ tema da BBC para a viagem do homem à lua, em 1969_ e Elton John e Bernie Taupin e seu “Rocket Man”, na abertura e no final do show. No final dos 60 e começo dos 70, após a auto-implosão do flower-power em Altamont, o mundo se enxergava na tecnologia e perguntava quantos homens do foguete iriam viver sua odisséia no espaço.



Na sua sandice, ou apenas sendo vítima de seu próprio destino, a humanidade tirou os olhos um pouco do espaço. Expedições tripuladas jamais foram além da Lua, mas a tecnologia nos trouxe a este mundo de hoje, que é extremamente dicotômico: Twitter e demais redes sociais podem servir tanto para as pessoas fazerem campanha em prol de seu big brother favorito como para organizar marchas e protestos pela liberdade no norte da África, no oriente médio e no Irã censurados. Ditadores cortaram os cabos de internet, mas os celulares 3G estavam lá e mandaram notícias para o resto do mundo sobre o que estava acontecendo.

Não é à toa que a Irlanda, afundada numa crise que só não é maior que o “great famine”, não é mais o cenário das imagens de fundo para “Sunday Bloody Sunday”. Saem os irlandeses, entram os árabes em busca da liberdade. O U2 sabe que “as garrafas quebradas sob os pés das crianças” estão lá, mas as pedras agora são outras: são a palavra, a imagem e o som transmitidos pela internet.



Nessa comunhão com seus fãs e o mundo, de pileque ou não, Bono, Edge, Adam e Larry não soaram nada anacrônicos em quase duas horas de show, ontem, no Morumbi. Seus mais de 30 anos de carreira não os tornaram dinossauros, porque eles souberam entender o mundo em que vivem e a plateia representava isso: crianças, adolescentes, jovens adultos e coroas, unidos, cantavam, cada um o seu hino.

Na volta pra casa, um rapaz de uns 25 anos delirava. Falava pelos cotovelos com seu grupo de amigos que “Walk On” havia sido o melhor momento do show (foi um dos melhores). No ônibus, um segurança que trabalhou no espetáculo, um senhor de uns 65 anos que se orgulhava de dizer aos turistas que havia visto gente nadar no Tietê em 1964, mostrava orgulhoso para uma fã mais nova o vídeo que havia feito de “Magnificent”.

E essa é a mágica que faz do U2 uma banda especial, que não à toa bateu o recorde dos Rolling Stones de turnê mais rentável. Eles são bem mais que uma banda hoje: são caras que estão nas casas de quase todo mundo, no mundo todo. Quem não tem uma coletânea, tem um DVD, ou CD baixado da internet, ou viu o clipe de “Vertigo” em algum lugar. Eles são mais que uma banda, são algo familiar, como um celular ou aquele porta-retrato na estante.



E o U2 sabe que todos somos protagonistas. Estimula que os fãs gravem os shows, tirem fotos. Disseram até que estavam gravando os shows e que colocariam as imagens para download no site da banda, mas que, quem baixasse não deveria contar nada ao manager do grupo. Enfim, U2 somos nós.

Quanto à música, mesmo como todo o palco, o telão incrível, que na hora em que se articula, formando uma espécie de globo da morte sobre a banda, lembra a capa do clássico álbum “Tommy”, do The Who (outra referência), ela ainda é o centro do show. E, no cenário futurista, e diante das condições vocálicas de Bono, uma ou outra música perde o sentido. No show que vi, pelo menos, foi o caso de “Pride (In The Name of Love)”: perdida num canto do repertório, sem sentido e sem pique.



Os melhores momentos, sem dúvida, ficaram por conta da produção da banda desde 89, a partir da virada representada por “Achtung Baby”. Abrir o show com “Even Better Than The Real Thing”, em novo arranjo, deu a senha. A bobinha “Get On Your Boots” ganha relevância com os graves extremamente bem equalizados saídos da “aranha”, “Magnificent” explode em cores nos arpejos brilhantes de Edge.

Em “Elevation”, a arquibancada do Morumbi vibrava muito com os pulos do público (eu que nunca havia estado na arquibancada do estádio, confesso que tremi, de medo). Depois de conversar com o público em “I Still Haven´t Found What I´m Looking For”, Bono e companhia batem o ponto em “Pride” e chamam Seu Jorge para uma deliciosa brincadeira com “The Model”, do Kraftwerk, que virou uma bossa de gringo com as ideias cheias de caipirinha, tão diferente que precisei de auxílio para reconhecê-la.

Mas os momentos mais fantásticos vieram depois com o trio formado por “Miss Sarajevo”, emocionante, a primeira que me arrepiou de verdade, com Bono arrancando um tenor não sei da onde, muito, mas muito melhor que a versão da turnê de 2006, uma versão integral e magistral de “Zooropa”, momento em que o telão se articula e vira o “globo da morte”, e “City of Bliding Lights”, que é uma música de show, impressionante.



Outra escorregada foi a horripilante versão de “I´ll Go Crazy If I Don´t Go Crazy Tonight”, um remix tosco do arranjo original com Larry se arriscando numa conga e dando um rolê pelo palco, absolutamente constrangedores (a volta e a conga). Mas, é aquilo, o U2 tem um grau de envolvimento com o público, e um timing de show tão absurdo, que sabem que o ridículo faz parte do espetáculo. Não tem medo dele. Isso aconteceu em “Lemon”, na PopMart, e com o “McPhisto” na turnê ZooTV.

Em “One” e “Where The Streets Have no Name”, os velhos fãs não tinham como não se emocionar. Velhos filmes caseiros mostravam a banda dando um rolê de Trabant em frente ao estádio olímpico de Berlim e no Parque Nacional de Joshua Tree, respectivamente, na época em que estavam na Alemanha e nos EUA, gravando os dois maiores álbums da banda: The Joshua Tree e Achtung Baby.

Para encerrar o show, Bono pede que o público guarde pensamentos para as vítimas do massacre de Realengo, em especial para os pais das crianças mortas. As luzes se apagam, a música, “Moment of Surrender”. Enfim, assim terminou a terceira passagem do U2 pelo Brasil. Depois, as luzes acenderam e tocou a fita de “Rocket Man”, mostrando imagens de astronautas no telão. O U2, sozinho, não pode salvar o mundo, mas é a única banda que tem o direito de achar que ainda pode. E as 90 mil pessoas que estavam ontem no estádio têm certeza disso.




Set List – U2 – 360º Tour – São Paulo – Estádio do Morumbi – 13.04.2011

Even Better Than The Real Thing
I Will Follow
Get on Your Boots
Magnificent
Misterious Ways
Elevation
Until the end of the World
I Still Haven´t Found What I´m Looking For
Pride (In The Name Of Love)
The Model (Kraftwerk cover) – U2 e Seu Jorge
Beautiful Day
Miss Sarajevo
Zooropa
City of Blinding Lights
Vertigo
I´ll Go Crazy If I Don´t Go Crazy Tonight
Sunday Bloody Sunday
Scarlet
Walk On
One
All I Want is You
Where the Streets Have No Name
Hold me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me
With or wout you
Moment of Surrender

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Pais, amor, filhos & The Beatles



Hoje é um dia especial para mim. Meu amor me armou uma surpresa. Disse que iria comprar livros, levou minha filha junto, e as duas voltaram com um Álbum Branco (1968) dos Beatles. Uau! Estava louco para ouvir esse clássico na versão remasterizada e fiquei mais uma vez impressionado. As castigadas caixas de meu portátil, que já está comigo há 12 anos, pareciam as de um velho estéreo modular dos anos 70, graças ao som da nova edição.

No quarto de minha filha está um quadro que eu montei toscamente em 1992, aos 17 anos. Em cima de uma moldura velha que achei no lixo do prédio, colei papel pardo e sobre ela as fotos dos quatro Beatles que faziam parte da minha edição em vinil do Álbum Branco. Sobrou um espaço e, em cima, escrevi “The Beatles”, com os tipos mais parecidos que consegui com a minha tosca técnica de desenho, imitando o logotipo da bateria do Ringo, o mesmo usado hoje, ladeados pelas inscrições 1962-1992, para celebrar os 30 anos do primeiro disco dos Beatles, tudo coberto com papel contact para disfarçar a melequeira feita com cola.

Quando mudei para o apartamento que vivo agora, eu quase aposentei o quadro tosco (na foto menor, um detalhe do quarto dela). Quando comentei a ideia com minha filha, então com 6 anos, ela pediu o quadro para ela. Perguntei se ela tinha certeza, se ela não iria acordar à noite assustada pela cara do John ou pelo nariz do Ringo, mas ela disse que não. Fiquei muito orgulhoso, lógico, pois ela gosta das coisas que eu gosto. E, hoje, quando ouvia meu presentinho, ela sabia dizer se quem cantava as músicas era o John ou o Paul, os quais ela já distingue. Logo ela saberá os nomes dos outros dois, eu tenho certeza.

Afinal, tudo começou em 1980. Eu tinha seis anos quando John morreu e ouvia Beatles, àquela altura, eventualmente. A coisa meio que entrava por um lado e saía pelo outro. Lembro de um programa de TV, quando era bem pequeno, talvez uma minissérie, chamada “Quem Ama Não Mata”, que tinha como tema “Yesterday”, creio eu... Uma ou outra que tocava no rádio, mas bem, aconteceu aquilo, o imbecil do Mark Chapman matou John Lennon pelas costas e eu precisei do Cid Moreira e do Sergio Chapelin para entender quem eram aqueles caras esquisitos do Rubber Soul, do Revolver e do Sgt. Pepper´s e de um compacto de Let It Be, empoeirados, que meu pai mantinha escondidos em meio a discos da Jovem Guarda e do rei Roberto, ótimos também, mas eles receberão um capítulo a parte.

De lá para cá, muita água rolou, duas bandas, um período como editor de música e crítico musical em um site jovem, dois anos na revista da NET, escrevendo de vez em quando sobre música, até que o velho amigo Luís Alberto Nogueira me convida para fazer um frila “que tem a sua cara”... Uma matéria sobre uns especiais e filmes dos Beatles que seriam exibidos no Multishow que incluiria uma lista das 20 mais importantes canções deles, escolhidas por este que vos fala.

Uau! Que responsa! A pauta fez bater a fissura de que eu precisava urgentemente começar a tomar vergonha na cara e dar a minha contribuição para a EMI continuar sendo um dos poucos moedores de carne ainda ativos da moribunda indústria da música e, no Rio, no fim de outubro, no primeiro finde após ser pautado, dei-me de presente o Abbey Road (1969). Fiquei passado ao ouvir a nova edição e decidi que completaria as lacunas de minha coleção dos Beatles em CD com as versões remasterizadas dos discos que eu não tinha ainda, exceto o Yellow Submarine, que só tem quatro inéditas e eu me recuso a comprar.

Está sendo uma deliciosa viagem desde então e hoje, graças ao presente de Clarinha, completei minha missão, em pouco mais de três meses. Estão comigo, fechando a galeria de todos os discos dos Beatles que eu gostaria de ter, além do Branco e do Abbey, Help! (1965) e Sgt. Pepper´s (1967) que eu ganhei no amigo secreto do trabalho, Magical Mistery Tour (1967), que ganhei da minha irmã, e Revolver (1966), que ganhei de minha mãe, ambos de Natal.

O último, aliás, é a segunda vez que ganho da minha mãe, pois em 05 de setembro de 90, na época da primeira grande remasterização, eu ganhei o vinil (pois é, gente, 16 anos, eu ainda pedia presentes para minha mãe, que ralava _e ainda rala_como costureira para me dar esses meus luxos de adolescente). Pois é, “como ele sabe a data?”. Eu tinha a mania de anotar dentro da capa, a data em que eu comprava cada disco de vinil. Com os cds, que passei a comprar em 92/93, eu abandonei a mania.

Só sei que se não fosse o compacto de Let it Be de meu pai, a morte de John Lennon, os presentes de minha mãe quando adolescente, a amizade do Luís e o amor de minha mulher e o gosto de minha filha pelos Beatles, eu não estaria escrevendo este texto agora e, com certeza, seria bem mais infeliz.

Ah, em um parágrafo vamos tentar explicar o que é arrebatador nas versões remasterizadas dos discos dos Beatles. Bem, a mixagem tá super alta. Parece que você está ouvindo um vinil daqueles antigos, pesados, em um som estéreo daqueles de matéria especial da SomTrês sobre qual o melhor som para a sua garçonière. Os vocais estão destilados pelas máquinas de mixagem digital, o baixo e o bumbo, destruidores, lá na frente, e as guitarras, limpas. É uma experiência sonora fantástica. E o melhor: em qualquer aparelho de som é assim. Fora a parte gráfica, a mais bem feita de todos os tempos, com um papel maravilhoso e tem sempre fotos alternativas de takes manjados. Um exemplo é a famosa foto da sessão de 28 de julho de 1968, com os Beatles com os cabelos crescidos (essa imagem aí de cima), ao vento. No encarte do álbum branco há uma outra versão dessa foto, pouco conhecida, com o vento muito forte. Enfim, relíquias que só os fãs e seus herdeiros conseguem entender.

P.s.: E para quem ficou curioso, segue a listinha das 20 músicas que eu considero, em termos de impacto social e histórico, as mais importantes na carreira dos Beatles: Love Me Do, Please, Please Me, She Loves You, I Want Hold Your Hand, I Feel Fine, Help!, Yesterday, Norwegian Wood, Tomorrow Never Knows, Yellow Submarine, Strawberry Fields Forever, Penny Lane, A Day In The Life, Lucy In The Sky With Diamonds, All You Need Is Love, Hey Jude, Helter Skelter, Get Back, Something e Let It Be. Quer saber os motivos das escolhas? Vá ao seu dentista e roube a Monet do mês passado.

sábado, 24 de outubro de 2009

Wry, Sesc Vila Mariana, 08.10.09*


Com um pouco de atraso, conto aqui sobre o show do Wry no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, no último dia 8 de outubro, o último show da turnê do CD She Science no Brasil após a volta dos meninos de Sorocaba ao país.


Primeiro lugar, o imprevisto. Quinta-feira, saíram de Sorocaba cinco horas antes do show, com o intuito de chegar mais cedo e passar o som. Eles nunca gastaram mais de uma hora e meia para chegar em São Paulo (a viagem é de 90 km), mas levaram cinco horas. Resultado, chagaram 20h20, 10 minutos antes do horário previsto para o início do show.

Pressionada pelo pessoal da técnica do Sesc, a banda teve que encurtar o repertório e, praticamente, passar o som no palco, com tudo plugado. Apesar dos percalços, o Wry fez um show maravilhoso. Como de costume, Mario foi o entertainer na noite dedicada ao som shoegaze. Não faltaram olhares para o chão durante a execução das músicas, especialmente do baixista W27, que parece tocar em transe, mas Mario é uma simpatia, sempre puxando papo e pedindo para que luzes fossem jogadas sobre a plateia, "para ver quem veio".

E o público que encheu meio auditório do Sesc sabia que nada os decepcionaria. Eu não via o Wry há anos. Salvo engano ou excesso de álcool, não consegui vê-los da última vez que eles estiveram no Brasil durante os 7 anos em que ficaram na Inglaterra gravando, vivendo, sofrendo e burilando seus sons na friaca britãnica, conhecendo gente bacana como Tim Wheeler, Gordon Raphael, e seus ídolos do My Blood Valentine, com quem até tomaram umas e outras.

E realmente o show foi fantástico, perfeito, atraindo inclusive novo público para a banda, como por exemplo, minha mulher, Rosa Clara, que curte mesmo é uma boa MPB. No fim do show, ela me surpreendeu dizendo que gostou e afirmando que "o barulho do Wry fazia todo o sentido, porque você vê que eles tem uma proposta, é arte pura". E é verdade.

Mesmo sem poder exibir as projeções que pretendiam mostrar, a banda foi coesa e escolheu o melhor do passado e do presente da banda, como numa prestação de contas de tudo o que viveram e aprenderam nesses mais de 15 anos de estrada (o meu primeiro contato com o Wry foi em 1995, quando eles foram a Santos tocar com o Train Crash os sons da demo Morangoland).

Houve canções antigas, como um trecho de "Under The Sky", de 1998, no fim do show, e novidades como "Dois Corações e o Sol", de She Science, lançada este ano, de versos belos como "quero entender os motivos de se esconder/de fugir do mundo"... "esses meus sonhos são memórias do que será/ então só quero dois corações e o sol". Outro destaque é a novíssima "nossa estória começa agora". E, claro, não poderia faltar a canção preferida de Mario (e a minha também): "Different From Me", lançada ano passado.

video

Fantástico também foi poder rever o talento de Renato Bizar na bateria. Renato voltou a banda este ano, com o retorno do grupo ao Brasil. A saudade bateu e ele havia voltado pra Sorocaba antes do grupo. Sua alegria em tocar é contagiante. Impressionante também a quantidade de ruídos e fluidos que Luciano Marcello e Mario tiram de suas guitarras, formando uma parede intensa de som e fúria. Que eles continuem. Amém. Só faltou "Sleeper".

Set List

1. Sister - 2. Never Sleep (When I Go) - 3. Bitter Breakfast - 4. Million Stars In Your Eyes - 5. Disorder - 6. Dois Corações e o Sol - 7. Nossa Estória Começa Agora - 8. In The Hell Of My Head - 9. Cancer com interferência de Under de Sky no final barulhento.

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William Leonotti -W27

Imprensa: Rogerio Garcia
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* Publicado originalmente por MO no blog AmplificaSound

domingo, 5 de julho de 2009

Nasi: sozinho e apaixonado


Depois do traumático e nada diplomático rompimento com o Ira!, em 2008, após uma briga por questões trabalhistas com o irmão que era empresário do grupo, Nasi resolveu recomeçar “sozinho e apaixonado”, como canta nos versos de “Bebendo Vinho”, do bardo gaúcho Wander Wildner, gravada pelo Ira! em 1999 no álbum “Isso é Amor”, e retomada agora para abrir o show que realizou ontem à noite, no Teatro do Sesc, em Santos, o primeiro na atual formação de sua banda solo, cuja turnê começou em março deste ano.

A escolha não foi à toa. Paixão pelo que faz e uma nítida solidão tornam os termos “sozinho e apaixonado” o moto perfeito desse artista, que não dá sinais de querer parar e que escolheu um repertório logicamente relacionado à sua própria carreira (e os mais de 20 anos com o Ira! não foram esquecidos) e ao momento artístico e pessoal que vive.

Como grande intérprete que é, Nasi não escolhe as músicas à toa. Seu principal critério parece ter sido as mensagens das letras das músicas e a identificação com os artistas que as gravaram originalmente. Parece ter havido também uma preocupação em evitar clássicos do Ira! de autoria do atual desafeto do guitarrista Scandurra, que ficou do lado do empresário irmão de Nasi e não do amigo de mais de 30 anos, na briga que levou ao fim da banda.

Ou seja, o show não teve “Envelheço na Cidade”, “Flores em Você”, “Dias de Luta” ou “Pobre Paulista”, músicas que segundo Nasi, em recente entrevista, remetem a um sentimento de amizade que não existe mais, e que ele não pretende tocar por um bom tempo. Das 23 músicas do show, apenas três tem assinatura 100% Edgard Scandurra.

Mesmo assim, a plateia estava ganha e o ovacionou em “Bebendo Vinho”. Essa escolha de palavras e canções não poderia ser mais apropriada quando Nasi continua o show com “Por Amor”, do recém-falecido Zé Rodrix e de Reinaldo Bessa, e “Pra Ficar Comigo”, versão dele e André Jung para “Train in Vain”, do Clash, ambas gravadas pelo Ira! no álbum “Acústico MTV” (2004), disco de maior sucesso da carreira da banda.

“Por Amor” traz os versos “movido apenas por amor vou em frente”, com a banda tocando pesado, rápido e alto, como deve ser num bom show de rock. A letra é uma síntese do Nasi apaixonado pelo palco e pelo público, que não consegue abandoná-lo, mesmo que “às vezes certo, às vezes meio confuso”, como os versos da canção. A fila de sucessos inicial termina com “Tarde Vazia”, clássico do Ira! de autoria de Ricardo Gaspa e Scandurra.

Na escolha minuciosa do repertório, Nasi não deixa de lado suas predileções ao tocar dois blues que gravou com o Nasi e os Irmãos do Blues, e uma versão blues de “Música Urbana”, da Legião Urbana, nem esquece de fazer um painel de sua carreira, lembrando, inclusive “Verdades e Mentiras”, que gravou com o Voluntários da Pátria, projeto que tocou paralelo ao Ira! no início da carreira da banda e que terminou, segundo suas próprias palavras “porque o vocalista brigou com a banda”. Nesse momento, em uma clara alusão à briga familiar que destruiu o Ira!, diz: “vocês são a minha família”.

Aproveita e também enaltece o underground, “dos bons tempos da Bela Vista”, bairro onde nasceu e no qual frequentava o Madame Satã, palco de vários dos grupos da época, e homenageia os colegas de banda, em especial o guitarrista Nivaldo Campopiano, que era do Muzak, da qual Nasi interpretou uma canção. “Esse é da turma que não se vendeu”, alfineta, ao elogiar o colega, que ocupa a dura função de tocar blues com solos límpidos e músicas do Ira! sem tentar imitar Scandurra. Nasi também agradeceu o amigo Johnny Boy, que gravou com o Ira! o álbum “7” (1996), mas está no baixo, substituindo o colega Ricardo Gaspa, do Ira!, que assumiu a função nos primeiros shows da turnê solo de Nasi. Completam a banda André Youssef (teclado) e Evaristo (bateria).

Recém egresso de uma homenagem prestada ao álbum “Krig-ha Bandolo!”, durante a última virada cultural em São Paulo, Nasi aproveitou-se e, claro, jogou para a plateia e incluiu um bloco de quatro canções de Raul Seixas: “Metamorfose Ambulante”, “As Minas do Rei Salomão”, “Mosca na Sopa” e “Sociedade Alternativa”.

Depois de “Eu Vou Tentar”, balada de Rodrigo Koala, gravada no último disco do Ira!, “Invisível DJ”, Nasi rendeu homenagem à Cazuza, com “O Tempo Não Pára”. Cada verso é respirado, cantado, ou melhor, cuspido. Na hora do verso “me chamam de ladrão, de bicha, maconheiro”, Nasi os adapta à sua vida e muda para “me chamam de bandido, louco e maconheiro”.

Um dos momentos mais bonitos do show foi a versão de “Eu Quero Sempre Mais”, também de “7”, em que Nasi deixou o público de Santos cantar a música praticamente na íntegra, a la Tim Maia, logo, logo vai estar no youtube, aposto. Em seguida, o primeiro bloco foi encerrado com o clássico “Núcleo Base”. Estas foram as duas únicas músicas da primeira parte do show de autoria “100% Scandurra”, o público aplaude Nasi e a banda, que sai abraçada do palco, de pé, e os chama de volta.

O bis começa apenas com Nasi e Johnny Boy numa versão linda de “O Girassol”, também de “7” (última música de Sandurra no show), e prossegue com uma versão raivosa de “Hoochie Coochie Man”, a cover de “Epitáfio”, gravada por Nasi na trilha da novela “Chamas da Vida”, uma versão linda para “É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”, de Erasmo Carlos e Roberto Carlos, gravada pelo primeiro em 1971, no magnífico “Carlos, Erasmo”, “Teorema”, da Legião, gravada pelo Ira! em “Isso é Amor”, e, para fechar “Aluga-se”, de Raul.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Novos horizontes, 26 anos depois



Enquanto muita gente se questiona se ainda é necessário possuir música em mídias tradicionais (CD, DVD, etc) eu constantemente me pergunto o que ainda me leva a comprar música em mídias tradicionais? E a minha resposta é: “carinho pelo artista” e “inovação”. Somente estes dois princípios me levam a torrar grana nesses auto-presentes luxuosos.

Perto do meu aniversário de 35 anos, minha namorada pediu que eu escolhesse um presente. Naquele momento, o coração falou mais alto e pedi o CD novo do U2... Afinal, com eles tenho 22 anos de relação e, mesmo não tendo gostado na hora do clipe, nem da música “Get On Your Boots”, exibido no Fantástico (olha só, clipes pela primeira vez no Fantástico, voltamos aos anos 80 ou a MTV que é completamente incompetente mesmo?), decidi dar uma chance aos meus queridos irlandeses que, naturalmente, começam a ficar com os narizes mais aduncos e os cabelos mais ralos.

O disco, evidentemente, se não muda a minha vida, também não compromete. É um disco muito bom, no qual o U2 segue a trajetória iniciada em 2000, com “All That You Can´t Leave Behind”: misturar novos rumos com elementos que remetam a passos anteriores da banda.

Se “All That You...” e “How To Dismantle An Atomic Bomb” remetiam ao começo da banda e à sua fase épica, “No Line...” flerta com o período eletrônico, entre “Achtung Baby” e “Pop”, incluindo o disco do Passengers_ o álbum, inclusive, usa vários samplers de obras de Brian Eno nos anos 80 e, em “Magnificent” usa na introdução um tecladinho que orgulharia o Kraftwerk.

Feito esse parenteses para resenhar o novo disco do U2, o que impressiona mesmo, de verdade, em “No Line”, para aqueles que adquirirem o álbum pela forma tradicional, lerem as letrinhas pequenas, irem no site da banda, esperar para c*, é o filme “Linear”, dirigido por Anton Corbijn. Velho parceiro do U2, o diretor de “Control” (a cinebiografia de Ian Curtis), nos entrega um “filme-mudo” maravilhoso e entrega também que “No Line” era um álbum conceitual.

Vendo o filme “Linear”, o fã descobre que o disco deveria ter saído em 2008, que tinha outra ordem de faixas (veja ao final do post o comparativo entre o set do cd e o de Linear), uma música que não entrou no CD, “Winter”, e descobre que o disco para o qual Corbijn fez o filme é completamente diferente do lançado em 2009. A ideia da banda era ter um produto para agregar valor ao CD, ideal para fãs que possuem aparelho MP4, o que lhes permitiria ouvir o disco vendo o filme.

Algumas experiências do gênero já foram feitas por outras bandas. No Brasil, o formato dual disc foi muito usado para agregar um filme com o CD (em geral, imagens de making off da gravação). O próprio U2, em “How To...”, lançou uma edição que continha um CD extra com alguns vídeos, mas este caso é diferente, pois um filme média-metragem foi feito para o disco e com uma história, interpretada por atores. E é sensacional, imagens fortíssimas. Belíssimo.

Em resumo, “Linear” é um road-movie em que um policial francês, de origem árabe, abandona Paris, pega sua moto e parte rumo ao Mediterrâneo, com destino ao Marrocos, onde vai buscar seu amor e suas origens. No caminho, muito U2.

Enquanto o U2 preparava “No Line...”, escondidinha a banda fez um lançamento importantíssimo, em 2008. 25 anos depois, lançou em DVD o filme “U2 Live At Red Rocks – Under a Blood Red Sky”, de 1983, com cinco faixas a mais que o VHS original, exibido pela MTV americana na época. O DVD traz praticamente na íntegra a impressionante apresentação da banda, durante a turnê mundial de “War”, no anfiteatro Red Rocks, nas cercanias de Dever, Colorado, Só faltou “I Fall Down”, porque uma das câmeras sofreu uma pane durante a gravação, o que impediu a utilização da faixa.

O DVD, para quem conhece U2 de longa data, é emocionante. Eu, por exemplo, nunca tinha visto o U2 tocar “Two Hearts Beat As One”, “Seconds”, “I Threw a Brick Through A Window”, “A Day Without Me”, essas duas últimas estupendas, ao vivo.

Ver U2 “Live At Red Rocks” é como testemunhar a transposição do U2 de banda regional para banda mundial, como eles mesmos profetizaram no verso “In the shadow, boy meets man”, de Twilight, do álbum “Boy”, que não é sobre pedofilia, mas sobre amadurecimento_ aquele momento em que, do nada, a vida torna um garoto um homem.

Mas o que “Red Rocks” tem a ver com “Linear” ou “No Line...”? Tudo e Nada, eu diria. “Red Rocks” foi o fim da fase pós-punk do U2, entre “Boy” e “War” e o início da fase épica, americana, aberta com “Unforgettable Fire” e encerrada com “Rattle and Hum”. O que se vê no vídeo é essa transição. Num palco e com uma produção grande para a fase que viviam no período, o U2 rompe com seus colegas de pós-punk, como Roberto Carlos fez com a jovem-guarda e diz: “quero ser grande”.

Querendo ou não (eis o link com “No Line”), o U2 abriu, pela primeira vez na carreira, uma senda que outros grupos seguiram. Enquanto a MTV ficava desfilando cabelos ainda cheios de gel, laquê e muita, muita tinta ruim, em clipezinhos de qualidade duvidosa, o U2 mostrou que o que diferencia homens de meninos é o que uma banda pode apresentar num palco... E isso ninguém mais ousou duvidar.

Curiosidade, apesar de sempre associado ao show em Red Rocks, devido ao vídeo, o EP “Under a Blood Red Sky”, lançado naquele ano só tem duas músicas gravadas no show de Denver: “Party Girl” e “Gloria”. A maior parte das músicas de “Under A Blood...” foi gravada no festival RockPalast, na Alemanha Ocidental, em agosto de 1985, cujo vídeo, da TV WDR, foi lançado recentemente no Brasil sob o “criativo” título de U2 Live. Tem na baciada da Americanas.

Por falar em baciada, o lançamento de “Live at Red Rocks” no Brasil é um escândalo, um caso de crime contra o consumidor. O DVD só está disponível na Saraiva e na Siciliano pelo mesmo preço: R$ 49,90. Não há sinal do produto na Americanas, nem na FNAC, nem em lojas tradicionais de CD e DVD. Acabei de ver no site da Amazon que o DVD custa US$ 11 nos EUA, o que daria menos de R$ 30, com imposto de importação de 50%, caso o produto caísse no sinal vermelho da Receita, você pagaria mais R$ 15... Tá quase compensando importar....

Comparativo do set de “Linear” (esquerda) e “No Line”.

01. UNKNOWN CALLER ..............NO LINE ON THE HORIZON
02. BREATHE .....................MAGNIFICENT
03. WINTER ......................MOMENT OF SURRENDER
04. WHITE AS SNOW................UNKNOWN CALLER
05. NO LINE ON THE HORIZON.......I´LL GO CRAZY IF I DON´T GO CRAZY TONIGHT
06. FEZ-Being Born...............GET ON YOUR BOOTS
07. MAGNIFICENT..................STAND UP COMEDY
08. STAND UP COMEDY..............FEZ-Being Born
09. GET ON YOUR BOOTS............WHITE AS SNOW
10. MOMENT OF SURRENDER......... BREATHE
11. CEDARS OF LEBANON............CEDARS OF LEBANON

sábado, 7 de março de 2009

Corsage: três estreias ao mesmo tempo


Em 1990, quando se escrevia estreia com acento, o Corsage fazia seus primeiros ensaios e shows no litoral de São Paulo. No ano seguinte, nascia Kleberson, que hoje toca com o Corsage. Após uma longa pausa de 14 anos, dois shows em Santos, com a formação original, ontem, 6 de março de 2009, no Cultura Rock Clube, em Porto Alegre, foi o primeiro show do Corsage fora do Estado de São Paulo, a primeira apresentação de TV da banda, no programa Radar, da TVE gaúcha, e a debut de Keko, nome artístico do menino que nasceu em 1991.

E quer mais? Era a estreia de Keko como guitarrista solo do Corsage, função de Carlinhos, que não pode vir ao show por motivos familiares.

Como eu já disse em algum lugar aqui nesse blog (e se eu não disse, disse na cara do sujeito), assistir a um show do Corsage, em 1992, e sua mistura de Stooges, com pós-punk, Mudhoney, Velvet e barulhos, mudou meu jeito de pensar a música e os rumos de minha banda de então, a Nowhere.

Quando soube que eles voltariam, ano passado, fiquei extremamente feliz e ansioso. Quando soube, em dezembro passado, que eles tocariam em Porto Alegre, fiquei tentado a vir na hora. E vim. E testemunhei o primeiro show do Corsage fora de SP e o primeiro show de Keko com a banda. Infelizmente, perdi a apresentação na TV.

O Corsage não parou no tempo. Gravou este ano uma demo com dois novos sons: “Destruidor de Corpos”, versão em português de “Body´s Destroyer”, do Any Wise Pub, seminal banda de noise a qual o vocalista Toni integrou paralelamente ao Corsage, junto com o TC Zanin, que atualmente mora na Europa, e “Sobrevivente”, uma nova música.

O Cultura Rock Club pareceu o lugar ideal para esses momentos históricos. Ali funcionou durante anos o histórico Funilaria. Uma casa na Cidade Baixa, o bairro noir de Porto Alegre, com uma entrada triunfal e uma escada no meio. No lounge, fica montado o palco, com direito a abajures e discos colados no teto. No bar, cerveja barata. Na platéia, 22 santas almas assistiram, aplaudiram e curtiram o Corsage, como deveria ser.

A banda tocou o set previsto de 12 sons, incluindo covers de “Festa Punk”, para agradar os gaudérios, “Head On”, na versão dos Pixies, e “I Wanna Be Your Dog”, dedicada ao falecido Ron Asheton. Depois do set, com o consentimento de todos e para felicidade geral da nação, o Corsage fez um bis com “Body´s Destroyer”, no original, acrescida paradinha funérea acrescentada por Toni na versão nova e um replay de “Feel Your Hands”, que abriu o show.

SÁBADO - Eu já vi de tudo na vida noturna, mas o que aconteceu no que era para ter sido a terceira apresentação do Corsage em Porto Alegre, sábado (7), no Oh La La, no Bonfim, Porto Alegre, foi um absurdo. Duas bandas estavam programadas para tocar no lugar: o Corsage e o Reverso Revolver. No horário combinado, às 20h, o Corsage apareceu para passar o som. Não havia equipamento.

O P.A. (equipamento para a voz) estaria guardado numa sala fechada. O funcionário do bar trouxe a parte básica da bateria (bumbo, surdo, o chifre e um ton-ton), deixou no meio da sala onde seria o show, que não tinha luz e foi embora. O pessoal das bandas pediu e ele colocou uma luz no palco para que o equipamento fosse montado e acabou aí a participação da casa no show das duas bandas.

A casa não avisou o promotor do show, que não sabia o que se passava na casa, pois também não ligou para as bandas para saber o que acontecia. Resultado: 0h30, as duas bandas tentavam uma solução, pois faltava (se é que o P.A. existia, pois ninguém viu) um cubo de baixo e um ampli de guitarra. Resultado: o Corsage foi embora do Oh La La à 1h, deixando de cumprir um terço de sua missão em Porto Alegre.

Espero que, em São Paulo, quando o Corsage convidar alguma banda de Porto Alegre para tocar por lá, nada disso ocorra.

Estes foram os sets do Corsage ontem em POA:

Programa Radar: TVE

Sobrevivente
Destruidor de Corpos
My Shoes Hate Me
Feel Your Hands

Cultura Rock Club

Feel Your Hands
Destruidor de Corpos
Akire´s Dream
Head On
Another Hell
Walking Blind
Progesterone
Festa Punk
My Shoes Hate Me
Sobrevivente
A Clown on the Clouds
I Wanna Be Your Dog
Body´s Destroyer
Feel Your Hands (reprise)