terça-feira, 16 de setembro de 2008

Richard Wright *1943 +2008


Em todas as bandas eu sempre gostei da terceira força. Nos Beatles, George Harrison, nos Stones, impossível não simpatizar pelos enigmáticos Brian Jones e Mick Taylor ou pelo sorriso fácil de Ronnie Wood. O mesmo acontece no Floyd com um de seus membros fundadores: Richard Wright, o tecladista, segunda voz da banda e terceira força compositora do quarteto no período entre 1968 e 1975, o auge do Floyd.

Wright morreu ontem em casa, aos 65 anos. Mais uma vítima do câncer no rock and roll. Câncer que levou George e tantos outros astros do rock. E ontem não teve como ficar triste, até porque não há, agora não há mesmo nenhuma chance de ver o Pink Floyd clássico unido novamente: Waters, Gilmour, Wright e Mason, a formação que se apresentou junta pela última vez no Live Aid 2005.

Agora é só nos Cds e nos DVDs da banda ou de David Gilmour que será possível ouvir a maravilhosa voz de Wright em clássicos como “Time” (ele que leva sozinho aquele trecho: “ev´ry year is getting shorter, never seem to find the time/ plans that either come to naught or half a page of scribbled lines/ hanging on a quiet desperation is the english way/ the time is gone, the song is over, thought i´d something more to say), “Echoes”, “Breath”, “Stay” e tantas outras.

Eu, especialmente, gosto muito, mas muito mesmo, de Wright como pianista. Adoro o jeito como ele martela as teclas no início da carreira, os acordes da surrealista “Remember a Day”, em Saucerful of Secrets, ou nas suas partes no álbum More. Ele é simplesmente brilhante nas suas contribuições ao Dark Side of The Moon, na suíte “The Great Gig in The Sky” e em “Us And Them”.

Lembro do dia em que ouvi pela primeira vez o Ummagumma, um álbum duplo completamente maluco do Pink Floyd. Cada Floyd tem meio lado de um disco experimental e o outro disco é um ao vivo com um lado praticamente tomado por uma versão extended de “Careful With That Axe, Eugene”, da trilha de Zabriskie Point, de Antonioni. Na boa, apesar das canções bonitinhas de Waters e Gilmour nesse disco, a melhor parte mesmo é Wright martelando o piano em sua suíte instrumental, “Sysyphus”. Naquela tarde, cochilei ouvindo o disco, acordei com Wright ao piano. Acho que foi o melhor susto da minha vida.

Wright, numa entrevista, disse que abandonou a carreira de letrista, após algumas tentativas fracassadas na opinião dele. Me admira o fato que sua última contribuição como “letrista solo”, após as belas “Remember a Day” e “See Saw”, em Saucerful of Secrets, foi justamente um clássico: “Summer of 68”, uma das três canções do álbum Atom Heart Mother, junto com “If” e “Fat Old Sun”, que nos aliviam dos trumpetes e outras maluquices de Ron Geesin na suíte que dá nome ao disco. Me despeço com essa letra, que é o desencanto pós-verão do amor, a típica desilusão de acordar após uma noite de sexo casual sem amor.

Adeus, Rick.

Summer ´68

Would you like to say something before you leave?
Perhaps you'd care to state exactly how you feel.
We say goodbye before we've said hello.
I hardly even like you.
I shouldn't care at all.
We met just six hours ago.
The music was too loud.
From your bed I came today and lost a bloody year.
And I would like to know, how do you feel?
How do you feel?

Not a single word was said.
The night still hid our fears.
Occasionally you showed a smile, but what was the need?
I felt the cold far too soon in a room of ninetyfive.
My friends are lying in the sun, I wish that I was there.
Tomorrow brings another town, another girl like you.
Have you time before you leave to greet another man
Just to let me know, how do you feel?
How do you feel?
Goodbye to you.
Charlotte Pringle's due
I've had enough for one day.

ATUALIZAÇÃO:

Comentário de Roger Waters sobre a morte de Rick Wright - "I was very sad to hear of Rick's premature death, I knew he had been ill, but the end came suddenly and shockingly. My thoughts are with his family, particularly Jamie and Gala and their mum Juliette, who I knew very well in the old days, and always liked very much and greatly admired. As for the man and his work, it is hard to overstate the importance of his musical voice in the Pink Floyd of the 60's & 70's. The intriguing, jazz influenced, modulations and voicings so familiar in "Us & Them" and "Great Gig In The Sky", which lent those compositions both their extraordinary humanity and their majesty, are omnipresent in all the collaborative work the four of us did in those times. Rick's ear for harmonic progression was our bedrock. I am very grateful for the opportunity that Live 8 afforded me to engage with him, & David & Nick that one last time.
I wish there had been more."

Roger Waters
September 2008

sábado, 30 de agosto de 2008

U2 3D


Direção: Catherine Owens, Mark Pellington

Ontem de manhã soube que estrearia em São Paulo o novo filme do U2, U2 3D, o primeiro filme em três dimensões de um concerto de rock. Já tinha lido um monte sobre a premiere mundial do filme em Cannes no ano passado e estava empolgado e curioso.

Achei que seria mais uma cascata tecnológica e que poderia estar jogando fora meus R$ 50 (projeções 3D são mais caras, pois têm que ser feitas em salas especiais da Dolby e tem uma meia dúzia dessas em SP. No Bristol, onde fui, cada ingresso custou R$ 25).

Pensei também que o filme iria bombar absurdamente e que um bando de fanáticos pelo U2, como a turba que enfrentei na tentativa frustrada de comprar o ingresso da turnê Vertigo no Brasil, em 2006, iria reaparecer, mas fui comprar meu ingresso, antecipado, na hora do almoço e, nada. Havia muitas vagas no cinema (sinal dos tempos?, afinal não estamos mais em 1988).

Por que, olha, depois que assisti ao filme, eu acho que deveria começar a ter uma fila enorme, pois é a mesmíssima coisa que estar num estádio, assistindo o show. Entretanto, é a sensação de assistir os caras da boca do palco, a partir da área vip e não naquele esquema de ver todos eles com tamanho de Falcon, no máximo.

Os óculos 3D são agora um pouco mais simpáticos, não é mais aquele trequinho de papel, com um celofane rosa de um lado e um amarelo do outro. Já no teste, passaram umas cenas de filmes da Pixar e fiquei impressionado.

O filme foi rodado justamente nos shows da perna latino-americana e australiana da turnê Vertigo e o filme começa com imagens muito bacanas do público no Morumbi, com a imagem linda de uma fã, correndo sozinha nos corredores do estádio e os primeiros fãs brasileiros chegando na boca do palco.

É evidente, o show começa com Vertigo, com closes absurdos (aliás, dá para ver bem como o Bono está ficando velho e feio). A tomada que mais impressiona é a aérea da bateria, pois dá toda a dimensão do instrumento. Os closes de palco são perfeitos e dão a dimensão real do palco que, analisado friamente, não é gigante. O U2 toca coeso e os músicos não estão muito distantes uns dos outros ali dentro.

Nos números em que o U2 usa as extensões do palco, como quando Adam Clayton caminha por uma delas, em New Year´s Day e Where The Streets Have no Name debulhando o baixo, quando ele se vira para o lado oposto ao que está, o braço do baixo invade o público. É incrível, mesmo.

Mas o número que fica melhor na nova tecnologia é Love and Peace (Or Else). Quando Larry vai ao palquinho tocar o kit reduzido, Bono aparece ao fundo e percebe-se nitidamente a distãncia entre ambos naquele momento reluzente do baterista no palco, sua estréia nos vocais também, aliás.

Edge sobra no filme. Quem gosta de seu jeito de tocar pode aprender vários truques vendo U2 3D e conhecer também cada detalhe das “n” guitarras que ele usa no show.

O show fez uma edição perfeita de trechos de diferentes shows em São Paulo, Buenos Aires, Santiago, Cidade do México e Melbourne parecendo uma performance realmente única, mas não é. A sincronia precisou ser perfeita. Em Where The Streets Have no Name, quando Bono vai citando os nomes dos países, o áudio, por exemplo, era do Brasil, pois na hora em que ele fala Argentina, o público vaia tremendamente, como aconteceram nas duas noites de show, infelizmente.

Entretanto, o público do Monumental de Nuñez deu show, como sempre (para quem não sabe, os argentinos são o melhor público de rock do mundo na atualidade. Os Ramones já diziam isso há séculos). Nas imagens da platéia, são eles que mais aparecem, pois tem uma bandeira platina o tempo todo na platéia. Mas não fiquem tristes brasucas, pois assistir um show do U2, mesmo na Argentina, não tem preço.

Só para terminar, o áudio é coisa de outro mundo e o filme tem 85 minutos. Afinal, sincronizar os diversos shows e fundir tudo com essa nova tecnologia de filmagem não deve ser nada fácil.

Como o filme está em cartaz em Sampa, acho que vale o serviço. Você pode assistir U2 3-D nos seguintes cinemas da capital:

Bristol 1, Eldorado 9, Iguatemi Playarte 1, Market Place Cinemark 6 e Plaza Sul 2

SET LIST:
Vertigo
New Year's Day
Sometimes You Can't Make It on Your Own
Love and Peace (or Else)
Sunday Bloody Sunday
Bullet the Blue Sky
Miss Sarajevo
Pride (In the Name of Love)
Where the Streets Have No Name
One
The Fly
With or Without You
Yahweh

sábado, 2 de agosto de 2008

U2, Rattle and Hum (1988)


direção: Phil Joanou

Voltamos 20 anos no tempo. Aos 14 anos minha vida estava numa encruzilhada. Como um bom adolescente nerd, cdf, inteligente, cegueta, etc e tal, meia boca nos esportes e péssimo com as garotas, minha vida era absolutamente miserável. Mas, Deus me deu uma chance: eu tinha bons amigos e Santos tinha uma rádio rock.

Lembro muito bem. Era 1987 e o U2 tinha lançado The Joshua Tree. Às vésperas do Grammy de março de 1988, a 95,3 FM, a antiga rádio rock de Santos, tocou “Where The Streets Have no Name”, o novo single do U2. E eu pensei comigo mesmo: “cacete, que porra é essa?, isso é que é música!”.

A mesma rádio tocava naquele outono “The Dead Heart”, do Midnight Oil, “Strangelove”, do Depeche Mode, “Perfect Kiss”, do New Order, “Tears Run Rings”, com Marc Almond... Acho que até Billy Brag tocava nessa rádio, Stray Cats... Putz, era sensacional. Era uma rádio dentro de seu tempo, não o que gente vê nas rádios rock de hoje, que só tocam clássicos ou só o lixo do momento, e não encontram mais um ponto de equilíbrio. A 95 procurava tocar o lado B também. Lembro de um especial fantástico sobre Joy Division, outro sobre o Velvet Underground, o primeiro com um texto emocionante, salvo engano do grande Lane Valiengo.

Dali em diante, minhas noites solitárias, ouvindo música romântica deprê na Tribuna FM, curtindo alguma fossa deprimente por causa de alguma garota bonitinha da escola ou porque tinha perdido no jogo da escolinha de basquete ou sido o penúltimo ou último escolhido na educação física, já eram. Foda-se, eu era agora um soldado do rock and roll. Havia encontrado meu Deus e minha cura.

U2, claro, passou a ser uma obsessão. Comecei a ir atrás de tudo deles. O primeiro “disco” foi uma fita k7 oficial do Joshua Tree. Logo arrumei alguém que tinha o disco e xeroquei as letras, ou copiei a mão mesmo. Um belo dia saiu a notícia de que sairia um filme, pois é, gente, um filme de cinema, com o U2!!!! Era o máximo que eu poderia chegar perto de Bono, Edge, Adam e Larry.

Esse filme era Rattle and Hum e ele mudou minha vida de novo. Lembro que fui ao cinema na primeira semana de exibição, num dia de semana, salvo engano, uma quarta-feira, à tarde. No cinema encontro um grande amigo meu que não vejo há anos, o Cirano. Ele era o meu ídolo. Um pouco mais velho, Cirano era o bad boy da escolinha de basquete. Baiano, diferente, cabelo jogado para cima, era realmente um rock star, sem saber.

Lembro o dia que ele me convidou para ir até a casa dele e me deu uma lata de spray e pediu para que pixasse o quarto dele. A mãe dele era super liberal. E ele tinha amigos que fumavam (cigarro) e bebiam e ele bebia e fumava também. Mesmo passando longe da piração, eu pirava com a música. Teve outro dia genial em que eles apagaram a luz e a gente ficou viajando, uns 40° C do lado de fora, ouvindo Psychocandy, do Jesus, e o Viva Hate!, do Morrissey.

Bem, foi uma surpresa encontrar o Cirano no Indaiá porque fui eu que apresentei U2 para o Cirano e ele sempre falava mal. A opinião dele só mudou um pouco depois que eu levei o “Unforgettable Fire” para ele. Encontrei o cara no final da sessão, chorando, e ele falou: “Vamos ficar quietinhos aqui na frente que a gente vê o filme de novo”... Hahaha, foi demais...

O que era aquilo? Que força era aquela que movia o U2 naqueles tempos? Eles queriam o mundo. E nos apresentaram outro mundo, cruzando a América daquele jeito. Quem viu esse filme e não chorou na cena em que o Larry se emociona ao falar de “Granceland”? Ou estranhou a forma cortês e irlandesa de ser durante o false start de “Angel of Harlem”. E a grande sacada do U2 e do diretor Phil Joanou que, principalmente, é um grande fotógrafo de cena, foi não apenas filmar o tour de “The Joshua Tree”, mas a viagem do próprio U2 no rock americano.

Foi a primeira vez que ouvi “All Along The Watchtower”, “Ruby Tuesday”... Foi a primeira vez que ouvi falar de Charles Manson, “Helter Skelter” (nenhum amigo meu tinha, na época, o “Álbum Branco”). Nossa, ver uma apresentação de “Bad” ao vivo era impensável naqueles tempos. A música renasce no filme, mas ficou de fora da trilha em disco, uma vez que já tinha recebido uma versão ao vivo no EP “Wide Awake in America”.

Saí do cinema decidido que fazer música seria minha vida. Três anos depois, minha primeira e modesta banda, a então Nowhere Band, estreava no palco da escola estadual onde estudava. Tinha 17 anos. Vivi o sonho por mais cinco anos, até 1996, quando o jornalismo me levou para outra dimensão, mas nunca te esqueci Rock and Roll.

sábado, 20 de outubro de 2007

Never forget Nirvana


Eu era o roqueiro clássico em 1991. Era fanático pelo básico: U2, Beatles, Stones e Pink Floyd. Conhecia alguma coisa de Lou Reed, Velvet Underground, Pixies, Echo and The Bunnymen e Bob Dylan e muito, muito Led Zeppelin, Doors, Joy Division e Jesus And Mary Chain. Me informava o máximo que podia aqueles tempos.

Lembro do belo dia em que ouvi Nevermind, do Nirvana, pela primeira vez. Foi em 1992, na casa do Xuxa, um amigo um ano mais velho, que tinha amigos mais velhos e se informava mais sobre novidades. Lembro que “On A Plain” me cativou, mas não saquei muito o resto. De cara, não entendia toda aquela gritaria, aquela guitarra pesada... Em suma, eu era um cabação.


Tinha minha namorada, estudava jornalismo numa faculdade particular na minha própria cidade, tinha minha banda de rock que me satisfazia artisticamente, onde despejava meus últimos arroubos de lirismo adolescente. Tava bom assim.


Isso seguiu assim até que um cara “esquisitão” do curso de Publicidade, o Toni, que eu considerava meio que uma entidade, me convidou para assistir ao show de uma das bandas dele, o Anywise Pub. Não lembro onde foi, sei que foi em 92 também, e a ficha começou a cair. Aos poucos, eu começava a me distanciar do som que fazia e passei a defender que o som da Nowhere, minha banda, tinha que ficar mais pesado.


No final de 92 e em 93, com o Hollywood Rock, foi o boom no Brasil do som grunge. Lembro que não gostava muito daquela coisa de clipes do Temple of The Dog, Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, Smashing Pumpkins, Stone Temple Pilots e Nirvana o tempo todo na MTV, que ficava ligada full-time no barzinho da faculdade. Não entendia, no meio do fenômeno, o que estava acontecendo. Não entendia como bandas underground até dois anos antes estavam bombadas na TV. Nem pensei em assistir ao Nirvana no Hollywood Rock. Achava o Alice in Chains mais legal e vi os caras pela TV.


Ok, assim seguiu. O som da Nowhere foi ficando mais pesado e eu vendo a revolução grunge pela TV. Até que vi o Corsage, a outra banda do Toni tocar. Uau! Não era, definitivamente, um som grunge, mas consegui ver como uma pessoa com influências dos anos 80 poderia atualizar o som que curtia. Ali a ficha caiu de vez e eu queria conciliar meus novos gostos com os antigos e o som da minha banda, mas ainda não foi a vez do Nirvana, que cada vez parecia mais legal para mim, mesmo depois daquele disco de lados B´s, então esquisitos para mim, o Incesticide.


E, enfim, aconteceu o que até então ninguém esperava. Kurt Cobain se matava com um tiro na cabeça em abril de 94 em Seattle, pouco depois de uma overdose em Roma. Lembro que fiquei abaladíssimo e comprei o Nevermind no dia que soube da notícia. Pouco depois comprei o segundo do Alice in Chains, mais uns meses e ganhei o Ten, do Pearl Jam. Lembro do vendedor estúpido da loja onde comprei o disco. “É, só porque o cara morreu, tá todo mundo comprando essa merda de novo”.


Eu lembro de ter ouvido Nirvana o dia inteiro aquele dia e a ficha caiu totalmente. Todo mundo que curtia som sabia dos problemas com drogas de Kurt e todo mundo esperava que ele morresse de overdose um dia, mas não que se matasse com um tiro na cabeça. E em 1994! Não agora.


94 passou devagar, com pesar. Naquele ano minha banda se dedicou durante seis meses, fazendo poucos shows e ensaiando apenas três músicas, gravadas em novembro. Adorei o resultado, mas achei o som desconectado de tudo o que acontecia a nossa volta. Não aguentava mais viradas sofisticadas de bateria. Queria fazer um som pesado, eu queria alterações drásticas de dinâmica, à la Nirvana, eu queria ser sincero com a minha dor interna, eu queria fazer barulho.


Queria misturar aquela massa pesado-melódica do grunge com tudo o que havia aprendido de rock até então, especialmente o som mais dark de Jesus and Mary Chain e Joy Division. No verão de 1995, já estava montado o Embryo, powertrio de som pesado do qual me orgulho. Em maio, tocamos em nosso primeiro festival e dedicamos um cover de “About a Girl”, do Bleach, ao Kurt. O Smelly Guys, que tocou no mesmo dia, fez uma versão matadora de “Serve The Servants”, do In Utero. O Joãozinho chorou depois de tocar a música. Tinha se lembrado de muitas coisas, talvez, mas, com certeza tinha se lembrado de Cobain.


Depois disso, Nirvana e outras bandas da época entraram no repertório e influenciaram o Embryo. Nos shows posteriores fizemos “Molly´s Lips”, cover do Nirvana para uma canção do Vaselines, “Been a Son”, “Lithium” e "It Ain´t Like That", do AIC. Lembro especialmente da versão de “Lithium” que fizemos no palco do verão da prefeitura de Praia Grande, mesmo palco em que Roberto Carlos, de quem sempre fui grande fã, e Mamma´s and The Papas haviam tocado. Chovia, mas uns 70 gatos pingados ficaram pulando sob o toró. Na rua, caminhando pelo calçadão depois do show, éramos reconhecidos. Lembro de uns moleques do ABC, gritando para a gente. “Yeah, yeh, yeah...”, como no refrão da canção... Estava no céu, até ter que me virar no meio da enchente para sair da cidade, sem ônibus, com os grandes parceiros Ivair e Mauro, que havia conquistado uma garota depois do show... Sexo e rock´n´roll, perfeito! Era o meu ideal de vida. As drogas eu sempre dispensei. Não queria acabar como Kurt ou Lanney Staley...


E em agosto de 1996, eu fui trabalhar em São Paulo. Pouco antes, Mauro havia deixado o Embryo, mas o som não tinha morrido em mim...


Onze anos depois, trabalho para preservar a memória da minha história no rock´n´roll e, quem sabe, juntar a molecada para um som. No meio disso, tenho mergulhado na leitura de livros super rock´n´roll e me deparei com a biografia de Kurt aqui em casa. “Mais Pesado que o Céu”, de Charles R. Cross, 400 páginas que devorei em cerca de 10 dias. Um livro perfeito, uma aula de jornalismo, com informações de toda a família de Kurt, amigos, empresários, outros jornalistas... E, constatei, Kurt Cobain nada mais foi do que um gênio. Maluco, mas um gênio. E esse cara mudou minha vida e minha percepção da música. Obrigado, Kurt. I´ll never forget Nirvana.

Cotações:

Bleach (1989) - ****1/2

Nevermind (1991) - *****

Incesticide (1992) - ****


In Utero (1993) - ****1/2

Unplugged in New York (1993) - *****

From The Muddy Banks of The Wishkah (1996) - ****

Singles (Box Set) (1995) - ****

Other Stuff:

Todos os CDs com artes, fotos e informações. In Utero completo com letras.

Cotação: ****1/2 (para todos)

domingo, 14 de outubro de 2007

REVOLUCIÓN, ENFIM!!!!


No mês em que o assassinato de Che Guevara completou 40 anos, eis que houve, enfim, a revolução. O Radiohead, uma das maiores bandas em atividade, com um catálogo de hits realmente importante, milhões de discos vendidos no mundo todo, com um vocalista esquisitão, mas carismático, rompeu de vez o cordão umbilical com a indústria. E pela primeira vez eu me senti compelido a, enfim, baixar um disco.


O grupo lançou seu novo disco no dia 10 de outubro pela internet (www.inrainbows.com), sem ter contrato assinado com nenhuma gravadora. Os ingleses deram ao fã duas opções no lançamento: baixar as dez faixas ou adquirir uma caixa especial, cheia de mimos, por quase R$ 150 (40 libras).


O detalhe: ao optar pelo download, o cliente poderia atribuir ao disco o preço que quisesse. Pela primeira vez, uma banda tornava tangível o conceito abstrato, mas verdadeiro, de que música não tem preço. Se quisesse, o cliente poderia atribuir zero como valor e pagar somente menos de meia libra a título de taxa de administração. Eu optei por pagar 1 libra, mais a taxa, ficou algo em torno de R$ 6.


Acho absurdo o preço atualmente cobrado por downloads oficiais nos sites de gravadoras ou lojas virtuais. Geralmente, paga-se entre R$ 1,90 e R$ 2,50 por uma faixa, o que definitivamente não vale um arquivo de MP3, o qual todo mundo sabe que não tem a mesma qualidade de um arquivo de áudio em um CD. E o consumidor não fica com nada tangível em troca, apenas arquivos, que podem ser perdidos com um simples esbarrão na tecla delete.


Esse mercado acentuou a compra de faixas e as pessoas ignoram informações sobre o que estão comprando_ ou seja, a arte de colecionar discos está sendo assassinada, como vários prazeres vêm sendo aniquilados nesta virada de século. Como digo no texto de apresentação do blog, é a banalização. As coleções de discos podem desaparecer. Não há mais nada para curtir, para chamar de seu.


O Radiohead, no seu pioneirismo, tenta romper com esse formato duas vezes. Primeiro, ao tornar o download a primeira forma disponível de se obter o álbum, e, segundo, ao não vendê-lo fracionado, ao não desmontar o conceito do álbum. É esperar para ver. Eu torço para que dê certo_ uma alternativa ao que considero a impessoalidade do download.


IN RAINBOWS – Radiohead volta ao paraíso


Após a quinta audição, não tenho dúvida. In Rainbows é um álbum pop, ao contrário do que disseram muitos jornalistas nas primeiras resenhas publicadas ao longo da semana passada.


Marcado por arranjos com arpejos de guitarra, o disco é repleto de melodias assobiáveis, de assimilação um pouco difícil, sim, mas, seguramente, é uma evolução, mais suave, da linha quase convencional trilhada em “Hail To The Thief” (2003), o último CD da banda. É o melhor álbum do grupo desde OK Computer (1997). Vai lá: www.inrainbows.com e compre o seu.


15 Step – Percussão, efeitos. Aos 45 segundos, entra a guitarra. Arpejos, slides, a melodia é circular e abre o disco com estilo;


Bodysnatchers – Rock´n´roll. Guitarras sujas lembrando Sonic Youth dominam a faixa. Pop, a canção tem até uma ponte grudenta antes do batidão sujão voltar;


Nude – Você se sente nos fundos de uma sala, onde violinos são tocados próximos do teto, como nos camarotes de um teatro. Sobre o arranjo de baixo, Yorke canta maravilhosamente;


Weird Fishes/Arpeggio – A faixa começa com percussão e logo surgem os arpejos , como o próprio nome da canção diz.

Yorke canta um arremedo de refrão:

“in the deepest ocean/ the bottom of the sea/ your eyes, they turn me/ why should I stay here?”.

A batida acelera, como peixes estranhos em um aquário;


All I Need – A mais estranha e também a mais pop. A faixa começa com um belo cello, mas sua batida lembra Joy Division e leva o ouvinte ao primeiro refrão nítido do disco... “you´re all I need”;


Faust Arp – Uma faixa bem rural, passa sensações campestres. Uma mistura de Pink Floyd pré-dark side com Nick Drake;


Reckoner – Novamente arpejos e percussão. Yorke canta como se murmurasse alto. O piano marca uma transição e a faixa termina com um cello matador. É a minha preferida, de longe;


House of Cards – Com apenas 5´25, é a faixa mais longa do disco. Começa com uma guitarrinha meio bossa, meio suingada. “I don´t wanna be your friend/ I just wanna be your lover”, canta o ET Yorke. Parece minha vida!;


Jigsaw Falling Into Place – Violão e bateria acelaradinhos. Gostosa. “C´mon and let it out”, “repete” o pastor Yorke neste quase-refrão;


Videotape – Belo final de um belo álbum. Tá nublado na praia, hora de correr para casa, sem antes não deixar de apreciar o mar se tornar uma mancha cinza.


Cotação: ****1/2


Other stuff – Por enquanto não tem other stuff. Além da opção do download, a banda oferece por 40 libras uma caixa com a versão de In Rainbows em vinil, CD, um disco com algumas faixas extras e muitos bichinhos e artes do “líder” da espaçonave Radiohead. Quem encomendou a caixona vai vê-la só em dezembro, perto do Natal. No início do ano que vem, deve sair a versão normal do disco, esperamos sem pilantragens, tipo faixas novas, o que descredenciaria toda a ousadia. E que as gravadoras fiquem longe desses meninos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Um brinde ao Skank



“Quando a noite estender um manto sobre nós

Meu abrigo então será o som da sua voz”

O Som da Sua Voz (Samuel Rosa/Chico Amaral), in Carrossel


Essa história mistura o profissional com o sentimental. Era junho de 2000, e eu trabalhava como editor de música do site Zoyd quando me credenciei para a coletiva que o Skank daria em um flat da região da Paulista para falar à imprensa de São Paulo sobre o lançamento do CD Maquinarama.


Até então, tirando a capacidade inerente de fazer hits pop como “Jackie Tequila” e “Uma Partida de Futebol” e clipes bacanas, como “Mandrake e os Cubanos”, o Skank não havia me cativado, exceto uma versão sensacional, em espanhol, de “Wrapped Around Your Finger” e o primeiro sucesso deles, “Tanto”, versão de “I Want You”, de Bob Dylan, com uma letra linda de Chico Amaral.


A coletiva começou com uma audição de Maquinarama. Tudo era diferente. “Três Lados” já tocava no rádio, mas não deixava claro tudo que estava por vir. Lembro dos jornalistas boquiabertos, não acreditando (naquele tempo o Napster era uma sombra e os CDs ainda reinavam inauditos até o lançamento). O disco já era diferente até na capa, com a foto de uma obra do pós-moderno Kenny Scharff. Ah, e o baixista Lelo Zanetti estreava como compositor de uma faixa sozinho, "Canção Noturna", com letra de Chico Amaral, até hoje presente em todos os shows do Skank, tradição que se manteve nos discos seguintes.


O Skank tinha deixado o Ska em alguma esquina e se mirava em todas as suas outras influências pop. O disco já abria com uma parceria bacana de Samuel e Edgard Scandurra, em “Água e Fogo” e bebia em um pouco de tudo: Beatles, Clube da Esquina (ainda menos que no Cosmotron e Carrossel), R.E.M, música de filmes do Tarantino, Fausto Fawcett_ o que é “Balada do Amor Inabalável”, meu Deus? Pop perfeito, o mais carioca que quatro mineiros podem chegar, sem dúvida.


Enfim, tudo era diferente e a atitude tranqüila da banda na coletiva me cativou de vez. Eu era, a partir dali, um fã de carteirinha da banda e passei a prestar a atenção em tudo o que eles faziam. Depois comprei o CD Cosmotron, de 2003, e assisti dois shows daquela incrível turnê em São Paulo, inclusive a gravação do especial Multishow.


Cosmotron, aliás, tem minha música preferida do Skank, “Dois Rios”, parceria de Samuel, Lô Borges e Nando Reis, com um piano maravilhoso de Henrique Portugal, e o maior hit da história do grupo, a super-pop “Vou Deixar”. A música tocou até encher um pouco o saco, mas é inegável. É um hit massivo, impressionante. A introdução na Rickenbacker, as alterações de dinâmica, o coro no refrão, a ponte quase sussurrada. Que canção!


E eles continuam surpreendendo. Escrevo esse texto ouvindo o último CD deles, Carrossel, lançado ano passado. O álbum marcou meu relacionamento com uma pessoa muito incrível, mas tão maluquinha e confusa como eu. O relacionamento acabou, mas meu amor pela banda e o CD ficaram aqui, intocáveis na estante. É reconfortante saber que há espaço para melodia no pop-rock brasileiro, com gravações de qualidade em trabalhos excelentes de gente como o Skank, Acústicos e Valvulados, Los Hermanos, Ludov, Pato Fu e Ira!


Carrossel continua seguindo a trilha de novas parcerias abertas em Maquinarama. Hoje, além de Chico Amaral, na minha opinião, um dos três maiores letristas brasileiros, autor de versos lindos como “das volutas que moram dentro/ do meu pesamento morno”, de Fica (Maquinarama), o Skank tem como parceiros fiéis, Lô Borges, Nando Reis, Fausto Fawcett, Rodrigo Leão e Humberto Effe. E nesse disco entraram Arnaldo Antunes, em “Trancoso” e César Maurício, do Virna Lisi, autor da letra de “Seus Passos”, uma das mais belas do álbum ("nesse jogo de reflexos, a certeza me distrai...").

Na última segunda-feira, dia 1, assisti um show da turnê Carrossel, numa festa fechada de uma empresa (onde tirei a foto acima). Mesmo com a platéia carregada de plumas e paetês, proseccos e Red Labels, o Skank não deixou a peteca cair. É claro que não dá para escapar de “Uma Partida de Futebol” e “Jackie Tequila”, mas é possível ouvir pérolas como “Mil Acasos”, “Uma Canção é Pra Isso”, “Dois Rios”. Skank ao vivo ou no disco é isso, um brinde aos ouvidos e à sensibilidade.


Cotações:

Maquinarama (2000) - **** 1/2

Cosmotron (2003) - ****


Carrossel (2006) - *****

Other Stuff:

Todos os CDs com encartes completos, com arte, letras e informações.

Cotação: ***** (para todos)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Um filme, uma trilha (Tudo Acontece em Elizabethtown)


“Aqueles que se arriscam, vencem”, lema da Royal Air Force.


Rapaz perde o pai um dia depois de causar prejuízo de um bilhão de dólares numa grande empresa de material esportivo. No caminho para Elizabethtown, uma cidade-paisagem no Kentucky, para cuidar da cerimônia fúnebre, o rapaz conhece uma aeromoça linda (que é só a Kirsten Dunst!!!!!) de uma companhia aérea falida. Ela decide encontrá-lo e eles vivem uma linda história, cujo fim eu não vou contar.


Até porque não tem fim quando o amor é verdadeiro, até porque não há resposta lógica quando essas cadeias de coincidências nos levam ao infinito e é isso que Cameron Crowe consegue também com seu filme e com a sua trilha sonora incrível.


Ex-repórter da revista Rolling Stone, como vimos em “Quase Famosos”, Crowe além de escrever e dirigir, sempre coordena a trilha sonora de seus filmes pessoalmente, assim como Clint Eastwood, por exemplo. E a trilha sonora do filme é uma das coisas mais lindas dos últimos tempos.


Reunindo música instrumental simples composta por sua esposa, Nancy Wilson, do Heart (alguém lembra?), com Tom Petty, Elton John, My Morning Jacket, The Hombres, blues, soul, o filme se dá ao luxo de “parar” por quase 20 minutos para mostrar a viagem do personagem por dentro de sua alma, e pelo centro-sul dos Estados Unidos, rumo aos arredores de Seattle, onde vivia a sua família_ 42 horas e 11 minutos de carro.


Para seguir seu caminho, ele ganha um mapa e a trilha sonora preparada pela moça. No caminho, ele passa por Memphis, onde faz uma pausa para ir na Sun Records, no MLK Memorial, num bar onde se reuniam e bebiam as feras do blues local... Depois do Mississipi, descrito como “a musa de Mark Twain e leito de morte de Jeff Buckley”, no meio do nada, no Kansas, o rapaz finalmente cai em si, ao som de “Square One”, de Tom Petty, e “My Father´s Gun”, de Elton John.


Ele lembra do pai, a ficha cai e ele percebe que a vida é muito mais que tudo isso_ que um fracasso, um tênis, o tamanho do nosso hollerith, o egoísmo que nos leva a achar que somos o último pedaço de carne seca do Nordeste... Agora era só escolher: o caminho de casa ou uma moça loira de gorro vermelho. Se ainda tem dúvidas de qual será a escolha do nosso herói, veja a trilha desse filme, clicando aqui. Aqueles que se arriscam, vencem.


E eu quero arriscar. Quem vai?



P.S.: Obrigado Stella pelo link para o download da trilha!!!

Cotação:
Filme: *****
Trilha instrumental: ***
Soundtrack: Vol. 1 - ****1/2; Vol. 2 ****1/2 (só não leva cinco, porque não tem "Freebird" e "In The Name of Love", que tocam no filme, mas não entraram nos CDs)