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sábado, 24 de outubro de 2009

Wry, Sesc Vila Mariana, 08.10.09*


Com um pouco de atraso, conto aqui sobre o show do Wry no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, no último dia 8 de outubro, o último show da turnê do CD She Science no Brasil após a volta dos meninos de Sorocaba ao país.


Primeiro lugar, o imprevisto. Quinta-feira, saíram de Sorocaba cinco horas antes do show, com o intuito de chegar mais cedo e passar o som. Eles nunca gastaram mais de uma hora e meia para chegar em São Paulo (a viagem é de 90 km), mas levaram cinco horas. Resultado, chagaram 20h20, 10 minutos antes do horário previsto para o início do show.

Pressionada pelo pessoal da técnica do Sesc, a banda teve que encurtar o repertório e, praticamente, passar o som no palco, com tudo plugado. Apesar dos percalços, o Wry fez um show maravilhoso. Como de costume, Mario foi o entertainer na noite dedicada ao som shoegaze. Não faltaram olhares para o chão durante a execução das músicas, especialmente do baixista W27, que parece tocar em transe, mas Mario é uma simpatia, sempre puxando papo e pedindo para que luzes fossem jogadas sobre a plateia, "para ver quem veio".

E o público que encheu meio auditório do Sesc sabia que nada os decepcionaria. Eu não via o Wry há anos. Salvo engano ou excesso de álcool, não consegui vê-los da última vez que eles estiveram no Brasil durante os 7 anos em que ficaram na Inglaterra gravando, vivendo, sofrendo e burilando seus sons na friaca britãnica, conhecendo gente bacana como Tim Wheeler, Gordon Raphael, e seus ídolos do My Blood Valentine, com quem até tomaram umas e outras.

E realmente o show foi fantástico, perfeito, atraindo inclusive novo público para a banda, como por exemplo, minha mulher, Rosa Clara, que curte mesmo é uma boa MPB. No fim do show, ela me surpreendeu dizendo que gostou e afirmando que "o barulho do Wry fazia todo o sentido, porque você vê que eles tem uma proposta, é arte pura". E é verdade.

Mesmo sem poder exibir as projeções que pretendiam mostrar, a banda foi coesa e escolheu o melhor do passado e do presente da banda, como numa prestação de contas de tudo o que viveram e aprenderam nesses mais de 15 anos de estrada (o meu primeiro contato com o Wry foi em 1995, quando eles foram a Santos tocar com o Train Crash os sons da demo Morangoland).

Houve canções antigas, como um trecho de "Under The Sky", de 1998, no fim do show, e novidades como "Dois Corações e o Sol", de She Science, lançada este ano, de versos belos como "quero entender os motivos de se esconder/de fugir do mundo"... "esses meus sonhos são memórias do que será/ então só quero dois corações e o sol". Outro destaque é a novíssima "nossa estória começa agora". E, claro, não poderia faltar a canção preferida de Mario (e a minha também): "Different From Me", lançada ano passado.


Fantástico também foi poder rever o talento de Renato Bizar na bateria. Renato voltou a banda este ano, com o retorno do grupo ao Brasil. A saudade bateu e ele havia voltado pra Sorocaba antes do grupo. Sua alegria em tocar é contagiante. Impressionante também a quantidade de ruídos e fluidos que Luciano Marcello e Mario tiram de suas guitarras, formando uma parede intensa de som e fúria. Que eles continuem. Amém. Só faltou "Sleeper".

Set List

1. Sister - 2. Never Sleep (When I Go) - 3. Bitter Breakfast - 4. Million Stars In Your Eyes - 5. Disorder - 6. Dois Corações e o Sol - 7. Nossa Estória Começa Agora - 8. In The Hell Of My Head - 9. Cancer com interferência de Under de Sky no final barulhento.

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William Leonotti -W27

Imprensa: Rogerio Garcia
rogerio.sgarcia@gmail.com


* Publicado originalmente por MO no blog AmplificaSound

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Snooze: cochilando só no nome


Rafael Jr. é um grande amigo, mas eu nunca vi Rafael Jr. O meu amigo é tudo o que eu quis ser um dia. Como eu, ele sonhava lá nos idos de 90 e poucos em ser músico e viver disso, mesmo tocando rock e em inglês. Hoje, enquanto escrevo resenhas, meu amigo é um profissional da música e, com ela, sustenta sua família. É respeitado no meio e tem sua fanbase (na qual me incluo).

Não se trata de auto-depreciação ou ironia, é apenas uma constatação feliz. Fico feliz por ele, por seu irmão e grande companheiro Fabinho. Eles são os cappi da banda Snooze, na ativa há mais de 15 anos, a melhor banda de indie rock viva do Nordeste, uma das mais melódicas do Brasil e mais rock´n´roll também, com certeza. E eles são de Sergipe, terra de meus pais e de meus avós.

Conheci Rafael em 95. Tava querendo me profissionalizar na música e, na raça, como estudante de jornalismo, levava a divulgação do Embryo (minha banda) nas costas. Copiava e mandava Brasil afora os releases que eu mesmo fazia e as cópias das demos que minha banda gravava nos estúdios de rádio da faculdade de comunicação da UniSantos.

Um dos fanzines para o qual mandava as fitas era o Cabrunco, de Jr e do jornalista Adolfo Sá. Escolhia os zines para os quais mandar as demos pelos nomes. E lógico que escolhi Cabrunco, porque pelo menos em casa, Cabrunco era um palavrão daqueles... Lembro que quando meu pai ficava realmente aperriado, revoltado das idéias, ele soltava um “fio dum cabrunco!”. E ai se eu repetisse... Quando perdia nos meus jogos de botão comigo mesmo eu soltava uns “cabruncos” de vez em quando. E ele dizia: “cabrunco é coisa ruim”... Hehehehe

E assim funcionavam as coisas, você mandava uma demo, recebia um fanzine e quando os caras dos zines eram legais e profissas como o Rafael, você recebia uma demo também. Depois de um tempo, a demo de sua banda recebia uma resenha. E uma das melhores demos que eu recebi naqueles anos maravilhosos de 95-96 foi a primeira do Snooze.

Eu era pirado nas duas primeiras faixas: “Someday” e “My Gramophone” e eu o Mauro e outros amigos ouvíamos vidrados a fitinha da Snooze (tenho ela até hoje). Eles misturavam tradições oitentistas com o melhor que rolava no mundo indie naquele tempo, pitadas de Sonic Youth, de My Blood Valentine, Pixies. O som tinha aquela suavidade indie, mas tinha um quê soturno, pós-punk, presente o tempo todo. E era (é) muito bom.

Nessas voltas que a vida dá, eu virei jornalista mesmo e o Embryo morreu de inanição, pois cada integrante morava num canto do Estado de S. Paulo. Fizemos um último show em setembro de 1996, eu e o Roberto (fundadores), o Shiro (guitarra) e o Aran (Bonequinho), no vocal, que vinha de Bauru, na raça, tocar com a gente e vez em quando. As demos estão aqui e eu vou digitalizar tudo em breve, assim como digitalizei parte do acervo de minha primeira banda, a Nowhere, que era outra praia.

Mas o Snooze não parou. A ferro e fogo e muitas mudanças de formação, Rafael e Fabinho foram levando, mesmo quando tiveram que morar em cidades diferentes. Gravaram dois Cds, o primeiro "Waking Up... Waking Down", saiu pela Short Records (SP), em 1998. Nesse disco estão “Life´s Good” e “How Can You Be Sure Today”, gravadas em 1997. Soube delas através de meu último contato postal com o grande Rafael.

E, nessas voltas que a vida dá, encontro um sujeito de nick Rafael Snoozer comentando uma foto de um velho ídolo meu, Johnny Hansen, no Orkut... Era, claro, o meu velho amigo Rafael Jr, direto de Aracaju. Entramos em contato e eu fui presenteado com o CD maravilhoso que o Snooze lançou em 2006 pela Monstro Discos/Solaris Discos, chamado Snooze, claro.

E os meninos não deixaram de ser eles mesmos, mas melhoraram, cresceram. É um prazer ouvir suas faixas encantadas. Rafael (bateria) e Fabio (baixo) tem a companhia, no disco dos guitarristas Clínio Jr e Marcelo Moura, outras duas feras.

A pegada está mais ainda calcada no rock´n´roll britânico, sem perder, claro, momentos de distorção e fuzz aquosos, como “Stay With Me/Noiserockisthejazzoffuture” com o vocal peculiar e belo de Fabio, seu baixo ondulante, e as viradas destemidas de Rafael, embrulhadas num mar de guitarras.

Em “Fado” e “Love and Death (No conclusions)”, a banda atinge os melhores momentos do CD. São faixas tranqüilas, suaves. “Love...”, especialmente, lembra muito, para mim, The Thrills e Teenage Fanclub. É interessante como a banda trabalha sua matéria prima básica, que é o rock, e a transforma em algo próprio, como o próprio Teenage e alguns poucos outros ainda fazem hoje em dia, esse entalhar artesanal.

Como disse no título, o Snooze cochila só no nome e, como todos nós, cresce e envelhece durante o torpor. Talvez os cochilos nas tardes quentes de Aracaju depois das cervejas antes e depois do almoço sejam a matéria prima desse sonho e o barril de carvalho que melhora o vinho. Long Live Rock!

Além dos dois discos citados, a banda ainda lançou, em 2002, "Let My Head Blow Up" pela parceria Monstro Discos/Short Records, com oito inéditas de estúdio e uma espécie de "Lado B" ao vivo, onde tem canções do primeiro disco, coisas inéditas e covers não creditados. Tem ainda a primeira demo em formato de CD-R, lançada em 2002 pela Solaris, considerado um play não-oficial pela banda, mas que é ótimo!!!

Aproveite e conheça o Snooze: http://www.myspace.com/snoozetherockgroup

P.S.: Rafael ainda é baterista em outra banda, a Maria Scombona, de música nordestina, de ramais tradicionais, misturados à poesia concreta do cantor e compositor Henrique Telles (outro dia eu falo dela aqui com mais carinho).