quarta-feira, 10 de junho de 2009

Novos horizontes, 26 anos depois



Enquanto muita gente se questiona se ainda é necessário possuir música em mídias tradicionais (CD, DVD, etc) eu constantemente me pergunto o que ainda me leva a comprar música em mídias tradicionais? E a minha resposta é: “carinho pelo artista” e “inovação”. Somente estes dois princípios me levam a torrar grana nesses auto-presentes luxuosos.

Perto do meu aniversário de 35 anos, minha namorada pediu que eu escolhesse um presente. Naquele momento, o coração falou mais alto e pedi o CD novo do U2... Afinal, com eles tenho 22 anos de relação e, mesmo não tendo gostado na hora do clipe, nem da música “Get On Your Boots”, exibido no Fantástico (olha só, clipes pela primeira vez no Fantástico, voltamos aos anos 80 ou a MTV que é completamente incompetente mesmo?), decidi dar uma chance aos meus queridos irlandeses que, naturalmente, começam a ficar com os narizes mais aduncos e os cabelos mais ralos.

O disco, evidentemente, se não muda a minha vida, também não compromete. É um disco muito bom, no qual o U2 segue a trajetória iniciada em 2000, com “All That You Can´t Leave Behind”: misturar novos rumos com elementos que remetam a passos anteriores da banda.

Se “All That You...” e “How To Dismantle An Atomic Bomb” remetiam ao começo da banda e à sua fase épica, “No Line...” flerta com o período eletrônico, entre “Achtung Baby” e “Pop”, incluindo o disco do Passengers_ o álbum, inclusive, usa vários samplers de obras de Brian Eno nos anos 80 e, em “Magnificent” usa na introdução um tecladinho que orgulharia o Kraftwerk.

Feito esse parenteses para resenhar o novo disco do U2, o que impressiona mesmo, de verdade, em “No Line”, para aqueles que adquirirem o álbum pela forma tradicional, lerem as letrinhas pequenas, irem no site da banda, esperar para c*, é o filme “Linear”, dirigido por Anton Corbijn. Velho parceiro do U2, o diretor de “Control” (a cinebiografia de Ian Curtis), nos entrega um “filme-mudo” maravilhoso e entrega também que “No Line” era um álbum conceitual.

Vendo o filme “Linear”, o fã descobre que o disco deveria ter saído em 2008, que tinha outra ordem de faixas (veja ao final do post o comparativo entre o set do cd e o de Linear), uma música que não entrou no CD, “Winter”, e descobre que o disco para o qual Corbijn fez o filme é completamente diferente do lançado em 2009. A ideia da banda era ter um produto para agregar valor ao CD, ideal para fãs que possuem aparelho MP4, o que lhes permitiria ouvir o disco vendo o filme.

Algumas experiências do gênero já foram feitas por outras bandas. No Brasil, o formato dual disc foi muito usado para agregar um filme com o CD (em geral, imagens de making off da gravação). O próprio U2, em “How To...”, lançou uma edição que continha um CD extra com alguns vídeos, mas este caso é diferente, pois um filme média-metragem foi feito para o disco e com uma história, interpretada por atores. E é sensacional, imagens fortíssimas. Belíssimo.

Em resumo, “Linear” é um road-movie em que um policial francês, de origem árabe, abandona Paris, pega sua moto e parte rumo ao Mediterrâneo, com destino ao Marrocos, onde vai buscar seu amor e suas origens. No caminho, muito U2.

Enquanto o U2 preparava “No Line...”, escondidinha a banda fez um lançamento importantíssimo, em 2008. 25 anos depois, lançou em DVD o filme “U2 Live At Red Rocks – Under a Blood Red Sky”, de 1983, com cinco faixas a mais que o VHS original, exibido pela MTV americana na época. O DVD traz praticamente na íntegra a impressionante apresentação da banda, durante a turnê mundial de “War”, no anfiteatro Red Rocks, nas cercanias de Dever, Colorado, Só faltou “I Fall Down”, porque uma das câmeras sofreu uma pane durante a gravação, o que impediu a utilização da faixa.

O DVD, para quem conhece U2 de longa data, é emocionante. Eu, por exemplo, nunca tinha visto o U2 tocar “Two Hearts Beat As One”, “Seconds”, “I Threw a Brick Through A Window”, “A Day Without Me”, essas duas últimas estupendas, ao vivo.

Ver U2 “Live At Red Rocks” é como testemunhar a transposição do U2 de banda regional para banda mundial, como eles mesmos profetizaram no verso “In the shadow, boy meets man”, de Twilight, do álbum “Boy”, que não é sobre pedofilia, mas sobre amadurecimento_ aquele momento em que, do nada, a vida torna um garoto um homem.

Mas o que “Red Rocks” tem a ver com “Linear” ou “No Line...”? Tudo e Nada, eu diria. “Red Rocks” foi o fim da fase pós-punk do U2, entre “Boy” e “War” e o início da fase épica, americana, aberta com “Unforgettable Fire” e encerrada com “Rattle and Hum”. O que se vê no vídeo é essa transição. Num palco e com uma produção grande para a fase que viviam no período, o U2 rompe com seus colegas de pós-punk, como Roberto Carlos fez com a jovem-guarda e diz: “quero ser grande”.

Querendo ou não (eis o link com “No Line”), o U2 abriu, pela primeira vez na carreira, uma senda que outros grupos seguiram. Enquanto a MTV ficava desfilando cabelos ainda cheios de gel, laquê e muita, muita tinta ruim, em clipezinhos de qualidade duvidosa, o U2 mostrou que o que diferencia homens de meninos é o que uma banda pode apresentar num palco... E isso ninguém mais ousou duvidar.

Curiosidade, apesar de sempre associado ao show em Red Rocks, devido ao vídeo, o EP “Under a Blood Red Sky”, lançado naquele ano só tem duas músicas gravadas no show de Denver: “Party Girl” e “Gloria”. A maior parte das músicas de “Under A Blood...” foi gravada no festival RockPalast, na Alemanha Ocidental, em agosto de 1985, cujo vídeo, da TV WDR, foi lançado recentemente no Brasil sob o “criativo” título de U2 Live. Tem na baciada da Americanas.

Por falar em baciada, o lançamento de “Live at Red Rocks” no Brasil é um escândalo, um caso de crime contra o consumidor. O DVD só está disponível na Saraiva e na Siciliano pelo mesmo preço: R$ 49,90. Não há sinal do produto na Americanas, nem na FNAC, nem em lojas tradicionais de CD e DVD. Acabei de ver no site da Amazon que o DVD custa US$ 11 nos EUA, o que daria menos de R$ 30, com imposto de importação de 50%, caso o produto caísse no sinal vermelho da Receita, você pagaria mais R$ 15... Tá quase compensando importar....

Comparativo do set de “Linear” (esquerda) e “No Line”.

01. UNKNOWN CALLER ..............NO LINE ON THE HORIZON
02. BREATHE .....................MAGNIFICENT
03. WINTER ......................MOMENT OF SURRENDER
04. WHITE AS SNOW................UNKNOWN CALLER
05. NO LINE ON THE HORIZON.......I´LL GO CRAZY IF I DON´T GO CRAZY TONIGHT
06. FEZ-Being Born...............GET ON YOUR BOOTS
07. MAGNIFICENT..................STAND UP COMEDY
08. STAND UP COMEDY..............FEZ-Being Born
09. GET ON YOUR BOOTS............WHITE AS SNOW
10. MOMENT OF SURRENDER......... BREATHE
11. CEDARS OF LEBANON............CEDARS OF LEBANON

sábado, 7 de março de 2009

Corsage: três estreias ao mesmo tempo


Em 1990, quando se escrevia estreia com acento, o Corsage fazia seus primeiros ensaios e shows no litoral de São Paulo. No ano seguinte, nascia Kleberson, que hoje toca com o Corsage. Após uma longa pausa de 14 anos, dois shows em Santos, com a formação original, ontem, 6 de março de 2009, no Cultura Rock Clube, em Porto Alegre, foi o primeiro show do Corsage fora do Estado de São Paulo, a primeira apresentação de TV da banda, no programa Radar, da TVE gaúcha, e a debut de Keko, nome artístico do menino que nasceu em 1991.

E quer mais? Era a estreia de Keko como guitarrista solo do Corsage, função de Carlinhos, que não pode vir ao show por motivos familiares.

Como eu já disse em algum lugar aqui nesse blog (e se eu não disse, disse na cara do sujeito), assistir a um show do Corsage, em 1992, e sua mistura de Stooges, com pós-punk, Mudhoney, Velvet e barulhos, mudou meu jeito de pensar a música e os rumos de minha banda de então, a Nowhere.

Quando soube que eles voltariam, ano passado, fiquei extremamente feliz e ansioso. Quando soube, em dezembro passado, que eles tocariam em Porto Alegre, fiquei tentado a vir na hora. E vim. E testemunhei o primeiro show do Corsage fora de SP e o primeiro show de Keko com a banda. Infelizmente, perdi a apresentação na TV.

O Corsage não parou no tempo. Gravou este ano uma demo com dois novos sons: “Destruidor de Corpos”, versão em português de “Body´s Destroyer”, do Any Wise Pub, seminal banda de noise a qual o vocalista Toni integrou paralelamente ao Corsage, junto com o TC Zanin, que atualmente mora na Europa, e “Sobrevivente”, uma nova música.

O Cultura Rock Club pareceu o lugar ideal para esses momentos históricos. Ali funcionou durante anos o histórico Funilaria. Uma casa na Cidade Baixa, o bairro noir de Porto Alegre, com uma entrada triunfal e uma escada no meio. No lounge, fica montado o palco, com direito a abajures e discos colados no teto. No bar, cerveja barata. Na platéia, 22 santas almas assistiram, aplaudiram e curtiram o Corsage, como deveria ser.

A banda tocou o set previsto de 12 sons, incluindo covers de “Festa Punk”, para agradar os gaudérios, “Head On”, na versão dos Pixies, e “I Wanna Be Your Dog”, dedicada ao falecido Ron Asheton. Depois do set, com o consentimento de todos e para felicidade geral da nação, o Corsage fez um bis com “Body´s Destroyer”, no original, acrescida paradinha funérea acrescentada por Toni na versão nova e um replay de “Feel Your Hands”, que abriu o show.

SÁBADO - Eu já vi de tudo na vida noturna, mas o que aconteceu no que era para ter sido a terceira apresentação do Corsage em Porto Alegre, sábado (7), no Oh La La, no Bonfim, Porto Alegre, foi um absurdo. Duas bandas estavam programadas para tocar no lugar: o Corsage e o Reverso Revolver. No horário combinado, às 20h, o Corsage apareceu para passar o som. Não havia equipamento.

O P.A. (equipamento para a voz) estaria guardado numa sala fechada. O funcionário do bar trouxe a parte básica da bateria (bumbo, surdo, o chifre e um ton-ton), deixou no meio da sala onde seria o show, que não tinha luz e foi embora. O pessoal das bandas pediu e ele colocou uma luz no palco para que o equipamento fosse montado e acabou aí a participação da casa no show das duas bandas.

A casa não avisou o promotor do show, que não sabia o que se passava na casa, pois também não ligou para as bandas para saber o que acontecia. Resultado: 0h30, as duas bandas tentavam uma solução, pois faltava (se é que o P.A. existia, pois ninguém viu) um cubo de baixo e um ampli de guitarra. Resultado: o Corsage foi embora do Oh La La à 1h, deixando de cumprir um terço de sua missão em Porto Alegre.

Espero que, em São Paulo, quando o Corsage convidar alguma banda de Porto Alegre para tocar por lá, nada disso ocorra.

Estes foram os sets do Corsage ontem em POA:

Programa Radar: TVE

Sobrevivente
Destruidor de Corpos
My Shoes Hate Me
Feel Your Hands

Cultura Rock Club

Feel Your Hands
Destruidor de Corpos
Akire´s Dream
Head On
Another Hell
Walking Blind
Progesterone
Festa Punk
My Shoes Hate Me
Sobrevivente
A Clown on the Clouds
I Wanna Be Your Dog
Body´s Destroyer
Feel Your Hands (reprise)

domingo, 1 de março de 2009

O primeiro show de rock


Estou feliz. Ontem, cumpri uma autopromessa de quase cinco anos: levar minha filha a seu primeiro show de rock. Em 2004, quando ela tinha 3 anos, anotei num blog antigo que havia duas músicas que ela sempre me pedia: "O Sol que Me Ilumina", do bardo Wander Wildner, e "Dois a Rodar", do super grupo pop Ludov.

Eu e minha companheirona estávamos com muito calor e ela muito cansada de brincar numa festa de aniversário, mas rodamos uma hora de ônibus, da Pompéia ao Ipiranga, para vê-los tocar no Sesc.

Corremos e chegamos enquanto Vanessa cantava a primeira música sozinha ao violão, depois o grupo desfiou sua esteira de sucessos em formato semi-acústico (não foi 100% acústico, pois eles usaram baixo elétrico e escaleta em alguns arranjos), cantados em uníssono pelos fãs, que lotaram a área de convivência do Sesc.

Teve de tudo, canções do EP “Dois a Rodar” e dos dois álbuns: “O Exercício das Pequenas Coisas” e “Disco Paralelo”, além de duas ou três músicas que poderão entrar no próximo disco, que eles começam a gravar hoje. Boa sorte, queridos.

Minha filha querida mandou bem, arrumou um lugar entre duas senhoras que ocupavam um sofá, acompanhou com palmas, cantou as que conhecia, levantou para tirar fotos, como essa aí de cima, com meu celular tosquinho... Ela teve mais sorte que eu, o Ludov tocou a canção preferida dela: “Dois a Rodar”. Eu fiquei sem “Dorme em Paz” (como eu queria gritar aquele refrão!!!)... Voltamos felizes para casa, comentando o show no ônibus. Ela tem sete anos, quase oito. E eu tô muito feliz.

E para quem não conhece Ludov, reproduzo aqui um texto que escrevi num blog meu, que já morreu, sobre o glorioso disco “O Exercício das Pequenas Coisas”.

Friday, February 04, 2005
O DIA EM QUE O POP ROCK FOI FELIZ

Que delícia chegar em casa e encontrar o CD novo sobre a mesa. Que delícia saber que não errei na compra. Pois é. O EP "Dois a Rodar" pôs as cartas na mesa e deu todas as pistas. O álbum "O Exercício das Pequenas Coisas" apenas confirmou: o Ludov veio para ficar no cenário pop-rock nacional, mas não é só, pois já está fazendo história.
Este álbum de estréia (na verdade o terceiro do grupo, que havia gravado dois discos inteiros como Maybees) é o "Pet Sounds" atrasado do pop brasileiro. Essa banda de mão cheia, formada por Mauro Motoki (guitarra, teclados e outras coisas), Habacuque Lima (guitarra), Vanessa Krongold (voz), Edu Filomeno (baixo) e Paulo Chapolin (bateria), extrai de seu caldo de cultura formado por Beatles, Mutantes, Bossa Nova, Brit Pop Fofinho, Pato Fu, Los Hermanos, Beach Boys, Burt Bacharach, REM, Smashing Pumpkins (fase Mellon Collie), em uma combinação perfeita com a voz entre o raso e o profundo de Vanessa, que poderia ser definida como uma Fernanda Takai com a potência de Chrissie Hynde e Natalie Merchant, o pop rock mais perfeito já escrito no país.
Mérito de Motoki, Lima e Vanessa, os compositores do grupo, mas mérito também de um disco esmerado, incrivelmente bem produzido, sem preguiça de experimentar arranjos novos _arriscando mais no teclado, overdubando vozes, violões, acrescentando coros, novos instrumentos...

Apesar das diferentes fontes musicais e da mutante voz de Vanessa, o disco é coeso e flui sem grandes turbulências do princípio ao fim, entre baladas puras como a onírica "Sete Anos", com vocal de Motoki, ao momento 10,000 Maniacs de "Estrelas" e as simbioses agridoces e pesadas de "Kriptonita" (a faixa de trabalho) e "Dorme Em Paz" (para mim, candidata a hit).

Espaço não falta para a criatividade da banda, que dá um chega prá lá na inveja com a bela "Gramado" (Se o gramado ao lado todo esverdeado/ Parecer melhor que o seu/ Tome mais cuidado com esse mau olhado/Não venha cuspir no meu), sacode o esqueleto na instrumental 5upertrunfo (assim, com 5. Uma homenagem ao REM e seus 4´s nas letras???), faz um link com a Jovem Guarda na batida da guitarra em "Elastano" e dá um presentinho aos atrasadinhos com o hit "Princesa", que os levou a ganhar o VMB categoria "Revelação".

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Snooze: cochilando só no nome


Rafael Jr. é um grande amigo, mas eu nunca vi Rafael Jr. O meu amigo é tudo o que eu quis ser um dia. Como eu, ele sonhava lá nos idos de 90 e poucos em ser músico e viver disso, mesmo tocando rock e em inglês. Hoje, enquanto escrevo resenhas, meu amigo é um profissional da música e, com ela, sustenta sua família. É respeitado no meio e tem sua fanbase (na qual me incluo).

Não se trata de auto-depreciação ou ironia, é apenas uma constatação feliz. Fico feliz por ele, por seu irmão e grande companheiro Fabinho. Eles são os cappi da banda Snooze, na ativa há mais de 15 anos, a melhor banda de indie rock viva do Nordeste, uma das mais melódicas do Brasil e mais rock´n´roll também, com certeza. E eles são de Sergipe, terra de meus pais e de meus avós.

Conheci Rafael em 95. Tava querendo me profissionalizar na música e, na raça, como estudante de jornalismo, levava a divulgação do Embryo (minha banda) nas costas. Copiava e mandava Brasil afora os releases que eu mesmo fazia e as cópias das demos que minha banda gravava nos estúdios de rádio da faculdade de comunicação da UniSantos.

Um dos fanzines para o qual mandava as fitas era o Cabrunco, de Jr e do jornalista Adolfo Sá. Escolhia os zines para os quais mandar as demos pelos nomes. E lógico que escolhi Cabrunco, porque pelo menos em casa, Cabrunco era um palavrão daqueles... Lembro que quando meu pai ficava realmente aperriado, revoltado das idéias, ele soltava um “fio dum cabrunco!”. E ai se eu repetisse... Quando perdia nos meus jogos de botão comigo mesmo eu soltava uns “cabruncos” de vez em quando. E ele dizia: “cabrunco é coisa ruim”... Hehehehe

E assim funcionavam as coisas, você mandava uma demo, recebia um fanzine e quando os caras dos zines eram legais e profissas como o Rafael, você recebia uma demo também. Depois de um tempo, a demo de sua banda recebia uma resenha. E uma das melhores demos que eu recebi naqueles anos maravilhosos de 95-96 foi a primeira do Snooze.

Eu era pirado nas duas primeiras faixas: “Someday” e “My Gramophone” e eu o Mauro e outros amigos ouvíamos vidrados a fitinha da Snooze (tenho ela até hoje). Eles misturavam tradições oitentistas com o melhor que rolava no mundo indie naquele tempo, pitadas de Sonic Youth, de My Blood Valentine, Pixies. O som tinha aquela suavidade indie, mas tinha um quê soturno, pós-punk, presente o tempo todo. E era (é) muito bom.

Nessas voltas que a vida dá, eu virei jornalista mesmo e o Embryo morreu de inanição, pois cada integrante morava num canto do Estado de S. Paulo. Fizemos um último show em setembro de 1996, eu e o Roberto (fundadores), o Shiro (guitarra) e o Aran (Bonequinho), no vocal, que vinha de Bauru, na raça, tocar com a gente e vez em quando. As demos estão aqui e eu vou digitalizar tudo em breve, assim como digitalizei parte do acervo de minha primeira banda, a Nowhere, que era outra praia.

Mas o Snooze não parou. A ferro e fogo e muitas mudanças de formação, Rafael e Fabinho foram levando, mesmo quando tiveram que morar em cidades diferentes. Gravaram dois Cds, o primeiro "Waking Up... Waking Down", saiu pela Short Records (SP), em 1998. Nesse disco estão “Life´s Good” e “How Can You Be Sure Today”, gravadas em 1997. Soube delas através de meu último contato postal com o grande Rafael.

E, nessas voltas que a vida dá, encontro um sujeito de nick Rafael Snoozer comentando uma foto de um velho ídolo meu, Johnny Hansen, no Orkut... Era, claro, o meu velho amigo Rafael Jr, direto de Aracaju. Entramos em contato e eu fui presenteado com o CD maravilhoso que o Snooze lançou em 2006 pela Monstro Discos/Solaris Discos, chamado Snooze, claro.

E os meninos não deixaram de ser eles mesmos, mas melhoraram, cresceram. É um prazer ouvir suas faixas encantadas. Rafael (bateria) e Fabio (baixo) tem a companhia, no disco dos guitarristas Clínio Jr e Marcelo Moura, outras duas feras.

A pegada está mais ainda calcada no rock´n´roll britânico, sem perder, claro, momentos de distorção e fuzz aquosos, como “Stay With Me/Noiserockisthejazzoffuture” com o vocal peculiar e belo de Fabio, seu baixo ondulante, e as viradas destemidas de Rafael, embrulhadas num mar de guitarras.

Em “Fado” e “Love and Death (No conclusions)”, a banda atinge os melhores momentos do CD. São faixas tranqüilas, suaves. “Love...”, especialmente, lembra muito, para mim, The Thrills e Teenage Fanclub. É interessante como a banda trabalha sua matéria prima básica, que é o rock, e a transforma em algo próprio, como o próprio Teenage e alguns poucos outros ainda fazem hoje em dia, esse entalhar artesanal.

Como disse no título, o Snooze cochila só no nome e, como todos nós, cresce e envelhece durante o torpor. Talvez os cochilos nas tardes quentes de Aracaju depois das cervejas antes e depois do almoço sejam a matéria prima desse sonho e o barril de carvalho que melhora o vinho. Long Live Rock!

Além dos dois discos citados, a banda ainda lançou, em 2002, "Let My Head Blow Up" pela parceria Monstro Discos/Short Records, com oito inéditas de estúdio e uma espécie de "Lado B" ao vivo, onde tem canções do primeiro disco, coisas inéditas e covers não creditados. Tem ainda a primeira demo em formato de CD-R, lançada em 2002 pela Solaris, considerado um play não-oficial pela banda, mas que é ótimo!!!

Aproveite e conheça o Snooze: http://www.myspace.com/snoozetherockgroup

P.S.: Rafael ainda é baterista em outra banda, a Maria Scombona, de música nordestina, de ramais tradicionais, misturados à poesia concreta do cantor e compositor Henrique Telles (outro dia eu falo dela aqui com mais carinho).

domingo, 21 de dezembro de 2008

Canções do coração

A música sempre pode nos surpreender. Já tinha ouvido algumas vezes o último disco do Weezer (The Red Album), lançado este ano. E gostei de tudo. Ontem, viajando com a minha filha, comecei a prestar a atenção na letra de Heart Songs, enquanto ela cochilava, e pirei. De uma simplicidade enorme, essa música pode ser a minha, a sua, a história musical de diversas pessoas de 30 e poucos anos...

Aproveito e desejo Feliz Natal a todos.

Leiam a letra. No You Tube tem um pedaço dela, conforme eles a apresentam na atual turnê. Rivers entra no palco e põe o disco para tocar... Sen-sa-cio-nal!

Heart Songs (Weezer)

Gordon Lightfoot
Sang a song
About a boat
That sank in the lake
At the break
Of the morning
A Cat named Stevens
Found a faith
He could believe in
And Joan Baez
I never listened
Too much jazz
But hippie songs
Could be heard
In our pad
Eddie Rabbitt sang
About how much
He loved a rainy night
Abba, Devo, Benatar
Were there day
John Lennon died
Mr. Springsteen said
He had a hungry heart
Grover Washington
Was happy on the day
He topped the charts
These are the songs

Chorus:
These are my heart songs
They never feel wrong
And when I wake
For goodness sake
These are the songs
I keep singin'

Quiet Riot got me started
With the bangin' on my head
Iron Maiden, Judas Priest
And Slayer
Taught me how to shred
I gotta admit though
Sometimes
I would listen
To the radio
Debbie Gibson
Tell me that you think
We're all alone
Michael Jackson's
In the mirror
I've gotta have faith
If I wanna see clear
Never gonna give you up
Wish me love
Or wishing well
It takes two to make
A thing go right
If the Fresh Prince
Starts a fight
Don't you worry
For too long
'Cause you know
These are the songs

(Chorus)

Back in 1991
I wasn't havin' any fun
'Till my roommate said
"Come on and put
A brand new record on"
Had a baby on it
He was naked on it
Then I heard the chords
That broke the chains
I had upon me
Got together with my bros
In some rehearsal studios
Then we played
Our first rock show
And watched the fan base
Start to grow
Signed the deal that gave
The dough to make
A record of our own
The song come
On the radio
Now people go
This is the song

These are my heart songs
They never feel wrong
And when I wake
For goodness sake
These are the songs
I keep singing

(4x):
These are the songs
I keep singing

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

25 músicas, 17 amigos



Não sei se por causa dos tempos de banda, mas quando penso em rock, penso coletivamente, penso em comunidade. São raras as ocasiões em que tenho a sensação de pertencimento. E não há outra ocasião em que me sinto mais ainda pertencer ao coletivo “fã de rock´n´roll” do que num show de rock, ainda mais num show mágico como o do R.E.M. ontem à noite no Via Funchal, em São Paulo.

Tanto é verdade que, além de curtir as 25 músicas maravilhosas do show, encontrei 17 amigos e conhecidos antes, durante e depois da apresentação, de diferentes épocas, de diferentes idades, de diferentes locais de trabalho, de diferentes cidades, mas todos unidos, ali, por um só motivo: a música que Michael Stipe, Mike Mills e Peter Buck fazem juntos há mais de 25 anos.

Foi a minha segunda vez com a banda e para mim foi a melhor. A primeira foi em 2001, com a minha mãe, que é fãzoca dos caras, no Rock in Rio 3. Foi sensacional, mas teve o grande show do Foo Fighters e aquela grandiosidade de festival em que a coisa se perde um pouco, fora o perrengue de ir num show do outro lado da cidade, bem longe do bairro onde estava hospedado no Rio, etc...

Mas, ontem, no Via Funchal lotado, as sensações foram todas amplificadas. Era como estar em casa rodeado de amigos, ouvindo a banda num estéreo possante... E ainda teve um repertório, genial, que incluiu a antiga “(Don´t Go Back To) Rockville” no bis e muitos, muitos clássicos. É uma banda de uma estatura tão magistral que toca uma música nova: “Supernatural Superserious” no bis. Isso é para poucas e raras bandas com mais de 20 anos de estrada.

O público deu show, mesmo com a lacuna causada na platéia pela área vip extremamente mal-dimensionada. No refrão de “It´s The End...”, a galera aceitou o convite de Stipe e gritava o “fine” ruidosamente. Nos minutos que antecederam o bis, a gritaria foi ensurdecedora, com muitas pessoas levando as mãos aos ouvidos, no momento em que o R.E.M. colocou um post it no telão com a provocadora pergunta: “mais r.e.m?”.

Como eu queria poder ir amanhã também... Mas não vai dar. Não posso, mas que eu gostaria eu gostaria...

Para quem não foi, babem no set list...

SET LIST – R.E.M. - São Paulo, Via Funchal, 10.11.08 – 110 minutos

Living Well Is The Best Revenge (Accelerate, 2008)
I Took Your Name (Monster, 1994)
What´s The Frequency Kenneth (Monster, 1994)
Fall On Me (Life´s Rich Pageant, 1986)
Drive (Automatic For The People, 1992)
Man Sized Wreath (Accelerate, 2008)
Ignoreland (Automatic For The People, 1992)
Hollow Man (Accelerate, 2008)
Imitation of Life (Reveal, 2001)
Electrolite (New Adventures in Hi-Fi, 1996)
The Great Beyond (Man On The Moon Soundtrack, 1999)
Everybody Hurts (Automatic For The People, 1992)
She Just Wants To Be (Reveal, 2001)
The One I Love (Document, 1987)
Sweetness Follows (Automatic For The People, 1992) - acústico
Let Me In (Monster, 1994) - acústica
Bad Day (In Time, The Best Of R.E.M, 2003)
Horse To The Water (Accelerate, 2008)
Orange Crush (Green, 1988)
Its The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine) (Document, 1987)

BIS
Supernatural Superserious (Accelerate, 2008)
Losing My Religion (Out Of Time, 1991)
Animal (In Time, The Best Of R.E.M, 2003)
(Don´t Go Back To) Rockville (Reckoning, 1984)
Man On The Moon (Automatic For The People, 1992)

sábado, 4 de outubro de 2008

Integridade = R.E.M.



Uma das principais notícias do meio musical em 1987, além do álbum The Joshua Tree e o U2 ocupando os primeiros lugares nas paradas dos EUA, era o sucesso quase improvável do R.E.M. (“rapid eye movement”, fase do sono em que ocorrem os sonhos). O quarteto formado por quatro jecas-universitários era de boa estirpe, a pacata Athens, na Georgia, berço de muito blues e, além de muitas plantações de algodão, do B-52´s, e undergrounds como Matthew Sweet e o Pylon. O cenário perfeito para o tédio? Não, Rock´n´Roll!!! Ou como dizem lá na Geórgia, quando perguntam porque tanta música boa vem de lá, “deve ser algo na água”.

E foi assim que quatro garotos que não sabiam muito bem o que queriam Michael Stipe, Mike Mills, Peter Buck e Bill Berry se juntaram para tirar um som. Buck, fã de Byrds, aprendeu a tocar guitarra quase adulto. Aprendeu fazendo (putz, isso me lembra tantas coisas...).

Pois é, voltando a 87, não esqueço o dia em que ouvi “The One I Love” pela primeira vez. Deus, o que era aquilo? Um riff de guitarra forte, predominante, coisa rara de se ouvir no rock brasileiro daquele tempo (como se ouvia e se gravava mal guitarra nos anos 80!!!)... Era Buck. E uma voz, uma voz dissonante, um Bob Dylan raivoso, com mais potência, forte tom anasalado... Era Stipe.

Dias depois vi aquele clipe bombástico de “The One I Love”, que anos depois descobri que tinha o dedo do próprio Stipe, naquele típico jogo de esconde-esconde em que ele viveu mais alguns anos. Havia imagens da banda tocando filmadas em ângulos diferentes e, intercaladas, cenas belas, oníricas, como a letra da música: “Essa vai para quem eu amo/ Essa vai para quem eu deixei para trás/ Uma simples muleta para ocupar meu tempo/ Essa vai para quem eu amo”. Essa quem? A canção, uma carta ou a tal muleta?

Se fosse só “The One I Love”, tudo bem, eles eram um single de sucesso. Parabéns. Mas era muito mais. Lembro do dia em que ganhei um cheque-disc da Prodisc e corri na loja do novíssimo Shopping Miramar (que não caiu!) e peguei o meu R.E.M.. Document, o LP, tinha “The One I Love”, mais dez faixas e nenhum encarte. Mesmo assim, preferi não escutar as outras faixas na loja, botei o bolachão embaixo do braço e fui embora.

Cheguei em casa e pus o disco para tocar na hora. Lembro que era umas 18h, ouvi umas três vezes, ouvi alto até umas 21h... Minha mãe estranhou um pouco, mas logo estava cantarolando comigo. Lembro que foi uma das primeiras vezes que vi que minha mãe curtia algum som que eu gostava também (fora os que ela gostava e, naqueles anos rebeldes, eu dizia que não. Robertão eu te devo um post).

O que dizer daquele lado A absurdo? Que abre com “Finest Worksong” e termina com “It´s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)? E o lado B, super místico, que começa com “The One I Love” e termina com “Oddfellows Local 151”? Nada, nada a mudar, nada a reparar. Apenas tocar de novo e de novo. Logo, fui mostrar a novidade aos amigos e todos gostaram muito.

Fiquei apreensivo quando, meses depois, após o sucesso impressionante de “The One I Love”, o grupo pensou na carreira e assinou um contrato com a Warner, deixando a independente I.R.S, que até hoje fatura vendendo o catálogo dos anos independentes do R.E.M. (1982-1987). Pensei: “Xiii, vai dar m...”...

Um ano depois, em 1988, a 95 FM (já falei dela aqui) começou a tocar “Orange Crush”, um rock tão quente quanto o efeito da arma química de que falava, o agente laranja, despejado na guerra perdida do Vietnã, na primeira guerra sem razão de inúmeras que a América enfrentou dos 70 para cá... Se algo havia mudado é que toda a banda estava um ano mais velha, pois o produtor era o mesmo, o vigor, idem. Mais inspirados, aperfeiçoaram o seu pop em pérolas como “Get Up”, “Stand” e “Pop Song 89”.
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Isto tem um nome: integridade. E pude saber que existia isso nas artes e na música pop e um sinônimo disso na música passou, dali em diante, a ser o R.E.M.

O lado político não poderia faltar (estamos falando aqui de um disco gravado nos anos 80!!!). “World Leader Pretend” é uma de minhas músicas preferidas de todos os tempos. “I raised the wall and I will be the one to knock it down”. Aquela música parecia ter sido uma entrega especial para mim. Eu era essa pessoa, eu era o adolescente pobre, ruim nos esportes, com poucos amigos, sem namorada, magrelo... Eu não tinha mulheres, não tinha grana, mas tinha a música, o cinema e os livros. Quando eu conseguia algum vendendo o jornal e as garrafas que catava na escadaria do prédio, eu comprava meus disquinhos e com eles submergia no meu mundo e através deles derrubei muitos muros intransponíveis e visitei lugares inimagináveis.

E muito disso eu devo a essa banda incrível, o R.E.M., que tive o prazer de curtir ao vivo junto com a minha mãe no Rock in Rio 3, em 2001, e que agora verei de novo, em São Paulo, sete anos depois, R$ 200 mais pobre no banco, mas milhões mais rico de espírito.

Leia a letra de "World Leader Pretend"